Quando o amor vira medo: o que Dormindo com o Inimigo nos ensina sobre violência doméstica

O clássico filme Dormindo com o Inimigo (1991), estrelado por Julia Roberts, é mais do que um suspense sobre fuga e sobrevivência.
É o retrato de muitas mulheres que sofrem violência doméstica e vivem aprisionadas em relacionamentos marcados por controle, humilhação e medo — mas que, por vergonha ou esperança, ainda chamam isso de amor.

Na trama, Laura aparenta ter uma vida perfeita: casa impecável, marido bem-sucedido, rotina organizada. Mas por trás da aparência de harmonia, há o terror constante de uma mulher que mede cada palavra e cada gesto para não provocar a ira do parceiro.
É nesse contraste entre o que se mostra e o que se sente que a violência doméstica costuma se esconder.

Na vida real, essa história se repete em diferentes tons e contextos.
Nem sempre a violência vem acompanhada de gritos ou marcas visíveis.
Ela pode surgir em pequenas proibições, em críticas disfarçadas de “preocupação” ou na tentativa de controlar cada aspecto da vida da mulher — o que veste, com quem fala, onde vai, quanto gasta.

Essas atitudes, quando repetidas, constroem um padrão de dominação que corrói a liberdade e destrói a autoestima.
E, muitas vezes, a vítima não percebe o quanto já está presa nesse ciclo, acreditando que o parceiro age “por amor”.

Como explica a psicóloga clínica e jurídica Daniele Pereira e Silva, especialista em Análise Clínica do Comportamento e Psicologia Jurídica em Goiânia, “a violência doméstica é, antes de tudo, uma perda de autonomia emocional. A mulher deixa de ser autora da própria história e passa a viver sob o olhar e o julgamento do outro.”

Reconhecer os sinais é o primeiro passo para romper esse ciclo.
E compreender o que está por trás dessas dinâmicas é essencial para que sociedade, profissionais e familiares saibam como acolher e orientar quem precisa de ajuda.

A violência doméstica começa quando o amor vira medo — e termina quando o medo dá lugar à coragem de recomeçar.

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O que é violência doméstica e por que nem sempre é fácil identificá-la

Nem toda violência é gritante.
Algumas se escondem no cotidiano, em frases repetidas, em gestos sutis e no controle silencioso da rotina.
Por isso, compreender o que caracteriza a violência doméstica é fundamental para reconhecê-la — e enfrentá-la — antes que alcance níveis mais graves.

O conceito segundo a Lei Maria da Penha

A Lei nº 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, define violência doméstica e familiar contra a mulher como “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual, psicológico, moral ou patrimonial”.
Essa definição amplia o olhar: a violência não está apenas nas agressões físicas, mas em qualquer conduta que provoque dor, humilhação ou perda de liberdade.

A lei reconhece cinco principais tipos de violência:

  • Violência física: atos que causam dor, ferimentos ou risco à integridade física.
  • Violência psicológica: ameaças, insultos, chantagens, manipulação emocional e controle.
  • Violência sexual: coação, constrangimento ou relações forçadas sem consentimento.
  • Violência patrimonial: retenção de bens, documentos ou dinheiro.
  • Violência moral: difamação, calúnias e ofensas à reputação.

Mesmo sem deixar marcas aparentes, essas formas de abuso afetam profundamente o equilíbrio emocional da mulher, podendo gerar ansiedade, depressão e traumas de longo prazo.

A sutileza do controle emocional

Nos casos de violência psicológica, o controle raramente começa de forma explícita.
Ele se instala em pequenos gestos: “Não gosto quando você fala com aquele amigo”, “Prefiro que você não saia hoje”, “É melhor deixar o trabalho por enquanto”.
Aos poucos, o agressor restringe o espaço da mulher no mundo — e dentro de si mesma.

Essas atitudes fazem parte de um mecanismo de poder que visa enfraquecer a vítima, isolá-la e criar dependência emocional.
Com o tempo, a mulher passa a duvidar de suas percepções, justificando o comportamento do parceiro: “Ele só é ciumento porque me ama”.

Mas o amor verdadeiro não controla — acolhe.
E o cuidado genuíno nunca vem acompanhado de medo.

O ciclo da violência — a repetição que aprisiona

Segundo os estudos sobre o comportamento abusivo, a violência doméstica segue um ciclo composto por três fases principais:

  1. Fase da tensão: pequenas discussões, críticas e ofensas aumentam progressivamente;
  2. Fase da agressão: ocorre a explosão — verbal, psicológica ou física;
  3. Fase da reconciliação: o agressor demonstra arrependimento, promete mudar e busca reconquistar a vítima.

Esse padrão cria uma dependência emocional: a vítima se apega às fases “boas” e passa a acreditar que a violência é uma exceção.
Com o tempo, a tensão retorna, reiniciando o ciclo.

No filme Dormindo com o Inimigo, vemos exatamente esse processo.
O marido de Laura alterna momentos de gentileza e brutalidade, confundindo a percepção da esposa e tornando-a prisioneira do medo.
Assim como na vida real, o ciclo só se rompe quando a vítima consegue reconhecer que o “amor” se transformou em ameaça.

Sinais emocionais e comportamentais que indicam sofrimento psicológico

A violência doméstica raramente começa com gritos ou agressões.
Ela se infiltra lentamente no cotidiano, criando um ambiente de medo e submissão.
Antes de haver qualquer gesto físico, a violência já se manifesta no comportamento, no corpo e nas emoções da mulher.

Reconhecer esses sinais é essencial — tanto para quem vive a situação quanto para quem está por perto e pode oferecer ajuda.
Muitas mulheres demoram a perceber que estão sendo violentadas porque o abuso foi se tornando parte da rotina, disfarçado de amor, preocupação ou cuidado.

Como explica a psicóloga clínica e jurídica Daniele Pereira e Silva, “quando o comportamento, o humor e a autonomia de uma mulher começam a mudar de forma repentina, é importante olhar para além das aparências. O sofrimento emocional é, muitas vezes, o primeiro indício de que algo não está bem.”

Mudanças de comportamento e isolamento

Um dos primeiros sinais é a mudança de comportamento.
A mulher, antes comunicativa e participativa, passa a se calar.
Evita encontros, festas e reuniões com amigos e familiares.
Começa a justificar o afastamento com frases como “estou cansada”, “ele não gosta muito de sair” ou “prefiro ficar em casa”.

Esse isolamento social é uma das estratégias mais comuns utilizadas pelo agressor.
Ao enfraquecer os laços de apoio, ele aumenta o controle e dificulta que a vítima tenha um espaço de escuta e acolhimento.

O isolamento não é apenas físico — é também emocional.
Ela deixa de compartilhar seus sentimentos, passa a se desculpar pelo comportamento do parceiro e evita falar sobre o relacionamento.
O silêncio se torna um escudo, mas também um pedido de socorro que precisa ser ouvido com empatia.

“Quem isola, controla.”
O afastamento da mulher de seus vínculos é, muitas vezes, o primeiro sintoma do abuso.

Ansiedade, medo e insegurança

A mulher que vive um relacionamento abusivo passa a viver em constante estado de alerta.
Seus movimentos, suas palavras e até sua forma de vestir são calculados para não provocar o parceiro.
O medo se torna companheiro diário: medo de errar, medo de ser julgada, medo de ser deixada sozinha.

Essas emoções provocam sintomas claros:

  • insônia ou sono agitado,
  • dores de cabeça e tensão muscular,
  • choro sem motivo aparente,
  • sensação de culpa constante,
  • e um cansaço emocional profundo.

A violência emocional gera uma espécie de aprisionamento psicológico, onde a mulher se vê presa a um padrão de obediência e vigilância.
Com o tempo, a ansiedade e a insegurança tornam-se tão intensas que ela perde a capacidade de decidir por si mesma.

Na análise clínica, esses sintomas são vistos como respostas condicionadas ao medo — uma adaptação psíquica para sobreviver em um ambiente imprevisível.
Por isso, a psicoterapia é fundamental: ela ajuda a identificar essas respostas automáticas e reconstruir o senso de segurança interna.

Desvalorização emocional e dependência afetiva

Outro sinal evidente é a perda da autoestima.
A mulher começa a acreditar que é inferior, que não merece amor ou que sem o parceiro não conseguirá viver.
Isso acontece porque o agressor, de forma sistemática, mina o valor pessoal da vítima com críticas, comparações e humilhações veladas:
“Você é fraca”, “ninguém te aguentaria além de mim”, “você não faz nada certo”.

Com o tempo, essas frases tornam-se verdades internalizadas.
A vítima começa a repetir o discurso do agressor, anulando-se para manter o vínculo e evitar conflitos.

A dependência afetiva se instala quando o medo de perder o parceiro é maior que o medo de permanecer na relação.
E mesmo quando reconhece o sofrimento, a mulher sente culpa por pensar em ir embora.
A confusão emocional é tamanha que ela já não distingue o amor do controle, o cuidado do poder.

É nesse ponto que a terapia se torna um espaço essencial.
A escuta clínica acolhe sem julgamento, ajudando a mulher a reconhecer sua dor, reconstruir sua identidade e retomar a autonomia emocional que foi perdida ao longo da relação.

“A violência emocional destrói em silêncio — e o silêncio, quando acolhido, pode ser o início da cura.”
Daniele Pereira e Silva

As diferentes formas de violência doméstica

A violência doméstica não se manifesta de uma única maneira.
Ela assume formas múltiplas e interligadas, que se alimentam mutuamente e, juntas, formam um sistema de dominação.
Como explica a psicóloga norte-americana Lenore Walker, criadora do conceito do Ciclo da Violência (1979), “a agressão raramente é um ato isolado — ela é parte de um padrão contínuo de controle e poder dentro da relação”.

Reconhecer os diferentes tipos de violência é fundamental para identificar situações de abuso e interromper o ciclo antes que ele se torne irreversível.
No filme Dormindo com o Inimigo, vemos todas essas dimensões: o controle psicológico, o isolamento, a humilhação e o medo físico coexistem, compondo um retrato fiel da dominação emocional.

Violência física — o corpo como território de poder

A violência física é a forma mais visível de agressão, mas nem por isso é a mais fácil de denunciar.
Muitas mulheres sofrem em silêncio por medo, vergonha ou dependência emocional.
Empurrões, socos, queimaduras, tapas e outras formas de agressão direta são atos de poder, não de raiva.

A psicóloga Marie-France Hirigoyen, autora de Assédio Moral: A Violência Perversa no Cotidiano (1998), destaca que o objetivo do agressor é “impor submissão, não apenas causar dor”.
Cada agressão física é acompanhada de uma mensagem simbólica: “você me pertence”.

Com o tempo, a mulher passa a viver em alerta, tentando antecipar reações, evitando situações que possam “provocar” o parceiro.
Essa vigilância constante corrói a saúde mental e reforça o ciclo de medo e controle.

Nenhuma agressão física é justificável.
O corpo da mulher não é um campo de poder — é território de respeito e dignidade.

Violência psicológica — quando as palavras ferem mais que os gestos

A violência psicológica é, talvez, a mais devastadora — porque destrói a mulher de dentro para fora.
Ela não deixa marcas visíveis, mas afeta profundamente a autoestima, a identidade e a percepção da realidade.

De acordo com Albert Bandura, teórico da psicologia comportamental, comportamentos abusivos são aprendidos por meio da observação e do reforço.
Isso significa que o agressor repete padrões vistos e recompensados em sua história de vida, enquanto a vítima, muitas vezes, internaliza o papel de submissão aprendido em contextos de dependência afetiva.

Os sinais mais comuns incluem:

  • humilhações constantes;
  • ameaças veladas (“você não vai conseguir viver sem mim”);
  • chantagens emocionais;
  • críticas à aparência, à inteligência ou às escolhas;
  • manipulação de fatos e da memória (gaslighting).

A psicóloga Judith Herman, referência mundial em estudos sobre trauma (Trauma and Recovery, 1992), descreve essa violência como “uma erosão sistemática do senso de si”.
A mulher perde o direito de sentir, pensar e decidir — e o medo se torna a principal emoção de sobrevivência.

O abuso psicológico não se mede em decibéis, mas em silêncios.
Ele é a negação da palavra, da voz e do direito de existir em paz.

Violência patrimonial — o controle financeiro como forma de submissão

Outro tipo comum é a violência patrimonial, caracterizada pelo controle dos recursos financeiros, destruição de bens, retenção de documentos ou restrição do direito ao trabalho.
Muitos agressores usam o argumento da “proteção” ou “organização familiar” para impedir que a mulher tenha independência econômica.

De acordo com a Análise Clínica do Comportamento, a dependência financeira é um comportamento mantido por contingências externas — ou seja, a mulher permanece na relação por medo das consequências práticas de sair dela.
Sem autonomia econômica, ela sente que não tem escolha.

A autonomia financeira, portanto, é também um fator de proteção emocional.
Quando a mulher tem acesso aos próprios recursos e decisões, diminui-se o espaço de controle e amplifica-se a capacidade de escolha.

Quando o controle vem disfarçado de cuidado, é abuso.
O amor não limita — apoia a liberdade e a independência.

Violência moral — as palavras que desconstroem a dignidade

A violência moral se manifesta por meio de ofensas, xingamentos, difamações, calúnias e acusações infundadas que atingem a honra da mulher.
Ela é especialmente cruel porque busca destruir a credibilidade social da vítima, isolando-a ainda mais.

Conforme estudos de Leon Festinger sobre dissonância cognitiva, quando alguém é constantemente exposto a mensagens negativas sobre si mesmo, tende a ajustá-las internamente para reduzir o conflito.
Assim, a vítima passa a acreditar nas ofensas e a se enxergar sob o olhar depreciativo do agressor.

Esse tipo de violência pode ocorrer publicamente ou no espaço privado, e é comum em relações em que o agressor tenta inverter papéis — apresentando-se como vítima, enquanto desacredita a mulher.
O resultado é devastador: vergonha, retraimento social e erosão da identidade.

🗯️ Palavras também deixam cicatrizes.
Quando o respeito é violado, o silêncio se torna cúmplice.

Violência sexual — o corpo sem consentimento

A violência sexual ocorre quando a mulher é forçada, constrangida ou manipulada a ter relações contra a vontade, ou impedida de decidir sobre o próprio corpo.
Mesmo dentro do casamento ou namoro, o consentimento é um direito inegociável.

Como explica Donald Winnicott, o vínculo afetivo saudável depende de um espaço de segurança e confiança.
Quando esse espaço é invadido, a intimidade se transforma em ameaça — e o corpo deixa de ser um lugar de presença, tornando-se um espaço de medo.

A violência sexual é uma das experiências mais traumáticas para a mulher, podendo gerar sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão e dissociação emocional.
O acolhimento psicológico é indispensável para reconstruir a relação com o próprio corpo e restaurar a percepção de controle e segurança.

🚫 Consentimento é respeito.
Nenhuma relação, por mais íntima que seja, autoriza a violação da vontade.

A multiplicidade dessas formas de violência mostra que o abuso não está apenas no ato, mas na intenção de controlar, enfraquecer e dominar.
O agressor se apoia em diferentes estratégias — físicas, emocionais, econômicas e simbólicas — para manter o poder.
E a mulher, por medo ou dependência, acaba acreditando que não há saída.

A boa notícia é que há.
A escuta clínica, a rede de apoio e o acolhimento profissional representam o início de um caminho de reconstrução.
Romper o silêncio é o primeiro passo para recuperar a própria voz.

O olhar da Psicologia: o que acontece com a mulher que vive um relacionamento abusivo

Por trás de cada história de violência doméstica, há um processo psicológico profundo.
A mulher não “permanece” em uma relação abusiva por fraqueza, mas porque está emocionalmente condicionada a sobreviver dentro de um ambiente de medo e dependência.
Esse condicionamento é resultado de mecanismos sutis de manipulação, que corroem a autonomia emocional e fazem com que a vítima passe a duvidar da própria percepção.

A psicóloga e pesquisadora Judith Herman, em seu livro Trauma and Recovery (1992), descreve que “a violência repetida em um contexto de intimidade destrói a estrutura interna da personalidade, desorganizando o senso de segurança e identidade”.
A mulher passa a viver em estado de hipervigilância, sempre antecipando possíveis reações do agressor, e o corpo desenvolve respostas automáticas de defesa — como se o perigo estivesse sempre presente.

Esse é um dos efeitos mais devastadores da violência: ela ensina a sobreviver, não a viver.

A perda da identidade e do senso de realidade

O abuso psicológico e emocional faz com que a mulher perca a referência de si mesma.
No início, ela tenta negociar, justificar ou adaptar-se para “evitar conflitos”.
Mas com o tempo, internaliza o discurso do agressor e passa a enxergar o mundo sob o olhar dele.

Esse processo é conhecido como gaslighting, termo cunhado na psicologia inspirando-se na peça teatral Gaslight (1938), onde o marido manipulava o ambiente para fazer a esposa acreditar que estava perdendo a sanidade.
Na vida real, o gaslighting ocorre quando o agressor nega fatos, distorce memórias e invalida emoções, até que a vítima perca a confiança em si mesma.

Como explica Carl Rogers, criador da abordagem centrada na pessoa, “quando a percepção de si é constantemente negada, o indivíduo se distancia de sua própria experiência interna” (On Becoming a Person, 1961).
Esse distanciamento gera uma sensação de confusão e impotência, típica das mulheres que vivem relacionamentos abusivos: elas sabem que há algo errado, mas já não conseguem nomear o que sentem.

A psicoterapia atua justamente nesse ponto: reconectar a mulher com sua própria experiência.
É um processo de devolução de voz, de reconstrução da identidade e de resgate da capacidade de confiar novamente em suas emoções.

Como a terapia ajuda na reconstrução emocional

Na Análise Clínica do Comportamento, abordagem adotada pela psicóloga Daniele Pereira e Silva, o foco está em compreender como o ambiente influencia os comportamentos e as respostas emocionais da mulher.
Inspirada nos estudos de B. F. Skinner, essa linha entende que comportamentos — inclusive os de permanência em relações abusivas — são mantidos por contingências: medo, dependência afetiva, reforços intermitentes de carinho e culpa.

O trabalho terapêutico busca romper esses padrões, ajudando a mulher a reconhecer as contingências que sustentam o sofrimento e a substituí-las por novas formas de agir e pensar.
Trata-se de um processo progressivo e profundamente humano: não há pressa, há presença.

Como afirma Karina Okajima Fukumitsu, referência brasileira na integração entre análise do comportamento e escuta existencial, “acolher o sofrimento humano é reconhecer que o trauma não define o sujeito, mas aponta para o que precisa ser ressignificado”.
Essa é a base do trabalho clínico de Daniele: acolher com técnica e empatia, sem julgamentos, permitindo que cada mulher reencontre, no seu tempo, a própria voz.

Durante o processo terapêutico, são trabalhados:

  • o reconhecimento das emoções suprimidas;
  • o resgate da autoestima e da autoconfiança;
  • o fortalecimento dos limites pessoais;
  • e a construção de novas formas de relação, pautadas no respeito e na liberdade.

“A cura começa quando o sofrimento encontra escuta.”
Daniele Pereira e Silva

O papel da psicóloga jurídica nos casos de violência doméstica

Quando a violência ultrapassa o campo emocional e se torna também uma questão legal, entra em cena o trabalho da psicologia jurídica.
A psicóloga jurídica atua tanto na escuta clínica quanto na elaboração de laudos e perícias psicológicas, que auxiliam o sistema de Justiça a compreender o impacto emocional da violência na vida da vítima.

Segundo o Conselho Federal de Psicologia (CFP), o laudo psicológico é uma ferramenta essencial para que o Judiciário possa tomar decisões fundamentadas, especialmente em situações que envolvem medidas protetivas, guarda de filhos ou processos criminais.

Em Goiânia, a psicóloga Daniele Pereira e Silva atua com essa dupla especialidade — clínica e jurídica —, oferecendo uma abordagem que une acolhimento e rigor técnico.
Sua atuação inclui:

  • entrevistas e escuta qualificada da vítima;
  • identificação dos impactos psicológicos do abuso;
  • aplicação de instrumentos reconhecidos (como o Método Rorschach, quando necessário);
  • e emissão de pareceres éticos e fundamentados, que ajudam a garantir a proteção e os direitos da mulher.

A presença de uma profissional qualificada é essencial para romper o ciclo da violência também no campo jurídico — transformando a dor em evidência e a escuta em ferramenta de justiça.

A mulher que sobreviveu a um relacionamento abusivo não precisa ser definida pelo trauma que viveu.
Com acolhimento, terapia e apoio jurídico, é possível reconstruir não só a autoestima, mas também a confiança na própria capacidade de existir livremente.

A violência doméstica retratada nas artes

A arte tem a potência de revelar o que o silêncio social muitas vezes esconde.
Filmes, séries e livros nos permitem olhar para a violência doméstica não apenas como um fato jurídico, mas como uma realidade emocional e humana.
Eles traduzem em imagens e sons aquilo que, para muitas mulheres, é difícil colocar em palavras: o medo, o controle, a culpa, a confusão entre amor e dor.

Ao representar o sofrimento psíquico e o processo de libertação, as obras artísticas cumprem uma função terapêutica: elas nomeiam o indizível.
Como explica Judith Herman, “a recuperação do trauma começa com a restauração da narrativa — quando o silêncio é quebrado e a história pode ser contada” (Trauma and Recovery, 1992).
É por isso que o cinema e a literatura são tão poderosos nesse contexto: eles permitem que a dor seja reconhecida, compartilhada e, de algum modo, ressignificada.

Dormindo com o Inimigo — o retrato do medo disfarçado de amor

Lançado em 1991, Dormindo com o Inimigo (Sleeping with the Enemy) tornou-se um marco na representação da violência doméstica.
Julia Roberts interpreta Laura, uma mulher que vive com um marido aparentemente perfeito — bem-sucedido, educado e zeloso. Mas, dentro de casa, ele é autoritário, controlador e violento.

O filme mostra de forma precisa a dinâmica psicológica da dominação: cada detalhe da rotina de Laura é monitorado — a disposição das toalhas, as latas organizadas milimetricamente, as roupas impecáveis.
Esses pequenos rituais simbolizam o controle total que o agressor exerce sobre a vida e o corpo da mulher.

O terror de Laura não está apenas nos momentos de agressão física, mas na expectativa da violência.
Como descreve Judith Herman, o trauma doméstico “não está apenas no ato em si, mas na permanência do medo”.
Laura aprende a sorrir enquanto teme, a agradar enquanto se apaga — uma estratégia inconsciente de sobrevivência.

Sua fuga representa o início do processo terapêutico: o momento em que a mulher percebe que o amor não pode coexistir com o medo.
Ao cortar os laços com o agressor, ela também corta o ciclo da submissão.
Mas, como tantas mulheres na vida real, Laura descobre que o corpo pode estar livre antes que a mente esteja pronta para acreditar nisso.

O recomeço, portanto, é mais do que físico — é emocional, simbólico e psicológico.
A psicoterapia atua exatamente nesse espaço: ajudando a mulher a reconstruir a confiança, reelaborar o trauma e recuperar o direito de sentir-se segura novamente.

A coragem de recomeçar — da arte à vida real

O processo de recomeço, retratado no cinema, é o mesmo que acontece na terapia.
No início, há medo, culpa e dúvidas.
Mas, aos poucos, o espaço de escuta possibilita algo que o trauma havia silenciado: o direito de existir sem pedir permissão.

Segundo Donald Winnicott, a cura acontece quando o indivíduo encontra um “ambiente suficientemente bom” — um espaço em que possa ser autêntico, sem medo de ser rejeitado (The Maturational Processes and the Facilitating Environment, 1965).
A psicoterapia é justamente esse ambiente: acolhedor, ético e restaurador.

A psicóloga Daniele Pereira e Silva descreve o processo de reconstrução emocional como “um retorno cuidadoso à própria história, sem julgamentos, mas com o compromisso de transformar dor em consciência”.
É o mesmo movimento que vemos em Laura, quando ela começa a se ver além do papel de vítima, redescobrindo sua identidade e sua autonomia.

A arte mostra o que a clínica confirma:
Recomeçar não é esquecer, é ressignificar.
É olhar para a dor e compreender que ela não define quem você é — apenas mostra onde você foi ferida.

Outras obras que ajudam a refletir

Assim como Dormindo com o Inimigo, outras produções artísticas têm trazido reflexões profundas sobre a violência de gênero, a manipulação emocional e a libertação feminina.

🎬 Big Little Lies (2017–2019)
A série estrelada por Nicole Kidman aborda com sensibilidade o ciclo da violência doméstica e os efeitos psicológicos de viver sob controle.
A personagem Celeste representa, com precisão clínica, o dilema de muitas mulheres: amar e temer o mesmo homem.
A série destaca a importância do apoio social — amigas que escutam, acreditam e acolhem — como fator de proteção e saída do ciclo do abuso.

O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale, Margaret Atwood, 1985)
Embora seja uma distopia, a obra reflete sobre o controle do corpo feminino e a supressão da liberdade como forma extrema de dominação.
O livro, e sua adaptação para a TV, mostram como a opressão institucional se apoia no medo e na obediência — mecanismos semelhantes aos presentes nas relações abusivas individuais.

História de um Casamento (Marriage Story, 2019)
Este filme mostra, de maneira mais sutil, como o desgaste emocional e a falta de comunicação podem gerar ambientes hostis, ainda que sem violência explícita.
A dor da separação é retratada com nuances psicológicas profundas — lembrando que nem todo sofrimento conjugal é abuso, mas que todo abuso nasce onde a empatia deixa de existir.

Essas obras, cada uma à sua maneira, ampliam a compreensão sobre o tema e reforçam a importância da educação emocional e da escuta empática.
Como afirma Karina Okajima Fukumitsu, “é pela possibilidade de ser escutada sem medo que uma pessoa encontra caminhos para a vida”.

A arte e a psicologia, portanto, caminham lado a lado: ambas reconhecem que o silêncio é o terreno onde a violência cresce — e que dar voz à dor é o primeiro passo para a libertação.

O cinema pode não curar, mas ensina a ver.
E quando enxergamos, podemos escolher: entre o medo e a liberdade, há sempre o caminho da consciência.

Como ajudar — o papel de quem está por perto

Em casos de violência doméstica, o silêncio não é apenas da vítima — muitas vezes, é também de quem observa e não sabe como agir.
Família, amigos, vizinhos e colegas podem perceber que algo está errado, mas sentem medo de “interferir” ou de “julgar errado”.
Porém, quando o silêncio é coletivo, a violência se perpetua.

A escuta e o acolhimento são formas de proteção.
Como diz o psicólogo Carl Rogers, “escutar é talvez a forma mais profunda de amor” (On Becoming a Person, 1961).
A escuta empática cria um espaço seguro onde a mulher pode, finalmente, se reconhecer como sujeito da própria história — e não apenas como alguém que sofre.

A psicóloga Daniele Pereira e Silva reforça:

“O acolhimento não exige respostas prontas. Ele começa quando alguém olha com respeito, acredita no que foi dito e oferece presença.”

Escutar sem julgar

O primeiro passo para ajudar é ouvir sem questionar, duvidar ou culpar.
Evite frases como:

  • “Por que você não sai dessa relação?”
  • “Você deve ter feito algo para ele agir assim.”
  • “No fundo, ele te ama, só é explosivo.”

Essas frases reforçam a culpa e o isolamento.
A escuta terapêutica e empática parte do princípio rogeriano de aceitação incondicional positiva — a capacidade de acolher o outro sem impor julgamentos morais ou interpretações precipitadas.

Na prática, isso significa:

  • ouvir com atenção e respeito;
  • validar o sofrimento (“eu acredito em você”);
  • e oferecer apoio emocional, sem pressão ou críticas.

De acordo com Karina Okajima Fukumitsu, “quando alguém nos escuta verdadeiramente, o trauma começa a se organizar dentro de nós — porque o silêncio que nos feria passa a ter um testemunho humano”.
Essa é, muitas vezes, a diferença entre o desespero e a esperança.

Orientar com empatia e responsabilidade

A ajuda deve vir acompanhada de informação segura e empatia ativa.
É importante que a mulher saiba que não está sozinha e que há canais de apoio e proteção garantidos por lei.

Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher
Canal gratuito e confidencial, disponível 24 horas por dia em todo o Brasil, que orienta e encaminha denúncias.

Disque 100 — Direitos Humanos
Atende casos de violação de direitos humanos, inclusive violência doméstica e psicológica.

Em situações de risco iminente, procure imediatamente a Polícia Militar (190) ou uma Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM).

Medidas protetivas da Lei Maria da Penha
A Lei nº 11.340/2006 garante à vítima o direito de solicitar medidas de afastamento do agressor, preservação do sigilo de endereço e acompanhamento jurídico e psicológico.

Além disso, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) orienta que profissionais da área atuem de forma ética e técnica nesses casos, sempre priorizando a escuta qualificada, o sigilo e o respeito à autonomia da mulher.

A informação é uma forma de liberdade.
Saber onde buscar ajuda pode ser o primeiro passo para sair do ciclo da violência.

O poder da rede de apoio — ninguém rompe o silêncio sozinha

A violência doméstica isola.
O acolhimento reintegra.
Por isso, a rede de apoio — formada por familiares, amigos, vizinhos e profissionais — tem papel decisivo na reconstrução da mulher.

Inspirado em Paulo Freire, podemos dizer que “ninguém se liberta sozinho; os seres humanos se libertam em comunhão”.
Na clínica, isso se traduz em vínculos restauradores: a presença de pessoas que escutam, respeitam e caminham junto.

Na prática, oferecer ajuda pode significar:

  • acompanhar a mulher a um serviço especializado;
  • ajudar a registrar um boletim de ocorrência;
  • ou simplesmente manter contato constante, mostrando que ela não está invisível.

A terapia, nesse contexto, se torna um espaço de recomeço — um lugar onde a mulher reaprende a confiar, a sentir e a decidir.
É também um espaço de reconstrução de vínculos: com o próprio corpo, com a palavra e com o mundo.

“Romper o silêncio é um ato de coragem. Sustentar o silêncio da escuta é um ato de amor.”
Daniele Pereira e Silva

Para refletir

A violência doméstica é, antes de tudo, uma violação da dignidade humana.
E toda dignidade pode — e deve — ser restaurada.

Se você reconhece esses sinais em alguém (ou em si mesma), procure ajuda.
A psicóloga Daniele Pereira e Silva oferece atendimento clínico e jurídico em Goiânia, com base na Análise Clínica do Comportamento e na Psicologia Jurídica, proporcionando escuta ética, acolhimento e sigilo profissional.

Agende uma conversa com segurança e acolhimento.
Goiânia | 🌐 danielepsicologa.com

Violência não é amor

O amor não deve causar medo.
Mas quando o afeto se transforma em controle, silêncio e dor, é preciso reconhecer que já não há amor — há violência.

A jornada de mulheres como Laura, de Dormindo com o Inimigo, é o espelho de tantas histórias reais.
Elas mostram que, embora o medo aprisione, a coragem também existe — e pode ser cultivada no encontro com o outro, na escuta terapêutica e no acolhimento profissional.

Como lembra a psicóloga Daniele Pereira e Silva,

“A terapia é o espaço onde a mulher aprende que recomeçar não é fraqueza — é um ato de coragem.
E coragem é o que nasce quando o medo encontra acolhimento.”

Buscar ajuda não é um sinal de desistência, mas de amor-próprio.
É escolher a vida, a paz e a reconstrução.

Se você, ou alguém que conhece, vive algo semelhante:
Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher
Disque 100 — Direitos Humanos
Acesse: danielepsicologa.com
Atendimento clínico e jurídico em Goiânia e online, com escuta ética e sigilo profissional.

Ninguém deve viver com medo.
A violência não é amor — e o silêncio nunca deve ser a única resposta.

Referências citadas:

  • Walker, L. E. (1979). The Battered Woman. New York: Harper & Row.
  • Hirigoyen, M.-F. (1998). Assédio Moral: A Violência Perversa no Cotidiano. Bertrand Brasil.
  • Herman, J. (1992). Trauma and Recovery. Basic Books.
  • Rogers, C. R. (1961). On Becoming a Person. Houghton Mifflin.
  • Fukumitsu, K. O. (2021). Acolher o Sofrimento Humano: A Arte da Escuta. Summus Editorial.
  • Winnicott, D. W. (1965). The Maturational Processes and the Facilitating Environment. Hogarth Press.
  • Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha). Brasília: Presidência da República.
  • Conselho Federal de Psicologia (CFP). Diretrizes para atuação em casos de violência contra a mulher. Disponível em: https://site.cfp.org.br
Quando o amor vira medo_ o que “Dormindo com o Inimigo” nos ensina sobre violência doméstica 3

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