O que o filme “Coringa” nos ensina sobre sofrimento psíquico e negligência emocional

Você já saiu de um filme em silêncio?

Não aquele silêncio comum de quem só está pensando na próxima tarefa do dia, mas um silêncio mais pesado, quase incômodo — como se algo tivesse sido mexido por dentro. Foi assim que muita gente reagiu ao assistir Coringa, um filme que escancara o sofrimento psíquico e a negligência emocional de maneira desconcertante.

O que mais inquieta na história de Arthur Fleck não são apenas as cenas de violência. É perceber que, antes de qualquer ato extremo, existia ali um homem profundamente ferido. Um homem invisível. Um homem que tentava — do jeito que sabia — sobreviver a uma dor emocional constante.

E essa é a pergunta central que este artigo propõe:

O que acontece quando o sofrimento psíquico não encontra escuta?

O filme não é um tratado técnico sobre saúde mental. Mas é um retrato potente do que pode acontecer quando alguém vive por tempo demais sem validação emocional, sem reconhecimento e sem apoio adequado.

Arthur ri quando está nervoso. Ri quando está constrangido. Ri quando está sendo humilhado. Aquela risada desconexa é um sintoma. É o corpo expressando algo que não encontrou palavras.

  • E aqui está um ponto importante para compreender:
  • Sofrimento psíquico nem sempre aparece como tristeza silenciosa.
  • Ele pode se manifestar como irritabilidade, isolamento, comportamentos considerados “estranhos” ou explosões emocionais.

Quantas pessoas, na vida real, carregam algo parecido?

Talvez você pense em um colega de trabalho sempre irritado. Em um parente que vive isolado. Ou até em você mesmo, quando sente uma exaustão difícil de explicar.

Nem todo sofrimento vira tragédia. Na maioria das vezes, ele vira silêncio. Vira insônia. Vira ansiedade constante. Vira sensação de não pertencimento. No fundo, a história de Arthur é menos sobre vilania e mais sobre negligência emocional.

Negligência emocional não é apenas ausência de cuidado físico. É ausência de validação. É crescer sem ouvir: “Eu vejo você”. É ter sentimentos ridicularizados ou ignorados até aprender que demonstrar dor é incômodo.

No filme, vemos cortes no atendimento psicológico, abandono institucional e solidão crônica. Mas fora das telas, a negligência emocional pode ser mais sutil. Ela pode acontecer em famílias estruturadas. Em relacionamentos onde ninguém agride, mas também ninguém escuta de verdade.

E é aqui que o tema se torna essencial.

Porque sofrimento psíquico não tratado não desaparece. Ele encontra formas de se expressar:

  • tristeza persistente
  • crises de ansiedade
  • irritabilidade frequente
  • comportamentos autodestrutivos
  • sensação constante de vazio

Em casos extremos, pode haver ruptura. Mas, na maioria das vezes, ele apenas corrói por dentro.

Existe uma cena em que Arthur pergunta à assistente social se ela realmente escuta o que ele diz. Ele não pergunta por ironia. Ele pergunta porque sente que ninguém o vê de fato.

Aquela pergunta revela algo profundamente humano: a necessidade de reconhecimento.

Ser visto. Ser ouvido. Ser levado a sério.

Quando isso falta repetidamente, a identidade começa a se fragmentar.

É importante dizer com clareza: o filme não justifica violência. Não romantiza o sofrimento. Mas ele nos obriga a olhar para um ponto incômodo — a dor ignorada não deixa de existir só porque ninguém quer encará-la.

Na clínica psicológica, aprendemos algo fundamental: comportamento tem história. Ninguém se transforma em algo desconectado do que viveu. Existem experiências acumuladas, invalidações repetidas, vínculos quebrados e contextos que moldam a forma como alguém reage.

Talvez a grande pergunta que Coringa nos deixa não seja “como nasce um vilão?”, mas:

O que acontece quando alguém sofre por tempo demais sozinho?

Ao longo deste artigo, vamos compreender:

– o que é sofrimento psíquico de forma clara e acessível; – como a negligência emocional impacta a construção da identidade; – por que sintomas são, muitas vezes, tentativas de sobrevivência; – e como a psicoterapia pode interromper ciclos silenciosos antes que eles se tornem colapsos.

Porque, diferente do cinema, a maioria das histórias não precisa terminar em caos.

Muitas podem recomeçar com algo mais simples — alguém disposto a ouvir.

O que o filme “Coringa” nos ensina sobre sofrimento psíquico e negligência emocional (3)

Quem é Arthur Fleck? A construção psicológica de um homem invisível

Antes da maquiagem borrada e da dança nas escadas, existe um homem tentando atravessar a cidade.

Arthur Fleck trabalha como palhaço. Segura placas na rua. Visita hospitais. Tenta fazer crianças rirem. Sonha em ser comediante. Quer ser visto. Quer ser reconhecido. Quer ser amado.

E isso é profundamente humano.

Mas, em quase todas as cenas iniciais, o mundo devolve a ele desprezo, indiferença ou violência. Ele é espancado por adolescentes. Ridicularizado no trabalho. Ignorado no transporte público. Interrompido quando tenta explicar sua condição.

Não é apenas o que acontece com ele. É a repetição.

E repetição molda identidade.

Quando uma pessoa cresce — ou vive por tempo prolongado — sendo tratada como irrelevante, começa a internalizar essa narrativa. Aos poucos, o “ninguém me vê” vira “eu não tenho valor”.

Esse é um ponto central para compreender o sofrimento psíquico: ele raramente nasce de um evento isolado. Ele se constrói em experiências acumuladas que moldam crenças profundas sobre quem somos.

A risada compulsiva de Arthur não é escolha. É sintoma. É o corpo reagindo a um estado interno desorganizado. É um sistema nervoso que aprendeu a viver em alerta constante.

Quantas vezes alguém é rotulado como “difícil” ou “exagerado” quando, na verdade, está apenas tentando sobreviver emocionalmente?

A invisibilidade é uma das dores mais silenciosas que existem. Não deixa marcas visíveis. Mas corrói lentamente.

Existe algo devastador em tentar falar e perceber que ninguém está realmente ouvindo. Em pedir ajuda e sentir que virou apenas mais um número.

Ser invisível não é estar fisicamente sozinho. É não ser reconhecido na própria dor.

E quando alguém permanece tempo demais nesse lugar, sua identidade começa a se reorganizar a partir da exclusão.

É aí que começa a ruptura.

Perguntas Frequentes sobre sofrimento psíquico e negligência emocional

1. O que é sofrimento psíquico?

Sofrimento psíquico é um estado de dor emocional persistente que afeta pensamentos, sentimentos e comportamentos. Ele pode se manifestar como ansiedade, tristeza constante, irritabilidade, sensação de vazio, dificuldade de concentração ou exaustão mental. Nem sempre é visível para outras pessoas, mas impacta profundamente a qualidade de vida.

2. O que é negligência emocional?

Negligência emocional ocorre quando sentimentos e necessidades emocionais não são reconhecidos ou validados, especialmente durante a infância. Ela pode acontecer mesmo em famílias estruturadas, quando a dor é minimizada ou ignorada. Ao longo do tempo, isso pode contribuir para baixa autoestima, medo de rejeição e dificuldade em regular emoções.

3. O filme “Coringa” retrata um transtorno mental real?

O filme não apresenta um diagnóstico específico, mas retrata de forma simbólica questões relacionadas a trauma, exclusão social e sofrimento psicológico acumulado. Ele não deve ser visto como representação clínica exata, mas como uma narrativa que provoca reflexão sobre saúde mental e negligência emocional.

4. Como saber se preciso de psicoterapia?

Você pode considerar buscar psicoterapia se perceber sinais como ansiedade frequente, sensação constante de inadequação, dificuldade em manter relacionamentos saudáveis, irritabilidade excessiva, insônia ou cansaço emocional persistente. Não é necessário estar em colapso para procurar ajuda. A terapia também pode ser preventiva.

5. A psicoterapia ajuda em casos de trauma e negligência emocional?

Sim. A psicoterapia auxilia na compreensão de padrões emocionais aprendidos ao longo da vida e ajuda a reorganizar a forma como experiências passadas continuam influenciando o presente. Ao oferecer escuta qualificada e segura, o processo terapêutico permite desenvolver novas formas de reagir e se posicionar no mundo.

Negligência emocional: quando o sofrimento não encontra escuta

Quando falamos em negligência, muitas pessoas pensam apenas em abandono físico. Mas existe uma forma mais silenciosa — e muitas vezes mais difícil de identificar — chamada negligência emocional.

O que é negligência emocional?

Negligência emocional é a ausência consistente de validação, acolhimento e reconhecimento das emoções de uma pessoa, especialmente na infância. Ela não deixa marcas visíveis, mas pode impactar profundamente a saúde mental ao longo da vida.

Ela acontece quando sentimentos são minimizados. Quando a dor é desqualificada. Quando o medo é ridicularizado. Quando a tristeza é tratada como fraqueza.

Não é necessário gritar. Às vezes basta ignorar.

Imagine uma criança que chora porque está assustada e escuta: “Para com isso, não é nada.” “Você está exagerando.” “Engole o choro.”

A mensagem implícita é clara: o que você sente não é importante.

Se isso acontece repetidamente, a criança aprende algo perigoso: não confiar nas próprias emoções.

E quando alguém aprende a desconfiar do que sente, começa a se desconectar de si mesmo.

Essa criança pode crescer tornando-se um adulto que:

– não sabe nomear o que sente – sente demais e se culpa por isso – explode emocionalmente porque nunca aprendeu a regular emoções com ajuda – vive com medo constante de errar ou decepcionar

No caso de Arthur, o histórico familiar revelado ao longo do filme sugere traumas precoces, abuso e confusão emocional. Quando o cuidado básico falha — especialmente nos primeiros anos de vida — o impacto não é apenas psicológico. Ele também é neurológico.

O cérebro aprende a viver em estado de ameaça.

Isso significa que o organismo passa a reagir como se o perigo estivesse sempre próximo. Pequenas frustrações parecem grandes ameaças. Pequenas rejeições parecem abandonos definitivos.

Mas é importante destacar algo essencial para compreender saúde mental de forma responsável:

A maioria das pessoas que sofreram negligência emocional não se tornam violentas.

O que geralmente acontece é diferente.

Elas desenvolvem:

– ansiedade crônica – baixa autoestima – medo constante de rejeição – relacionamentos instáveis – sensação persistente de não pertencimento

A negligência emocional cria adultos que duvidam de si mesmos o tempo inteiro.

Adultos que pedem desculpas por existir. Que têm dificuldade de impor limites. Que vivem tentando ser suficientes.

O sofrimento psíquico, nesses casos, não é dramático como no cinema. Ele é cotidiano.

É acordar cansado antes mesmo do dia começar. É sentir um aperto no peito sem saber explicar por quê. É rir em público e desabar em casa.

O filme escancara uma versão extrema do que acontece quando alguém não encontra escuta. A vida real mostra versões silenciosas disso todos os dias.

E talvez a pergunta mais desconfortável que o filme nos deixa seja:

Quantas histórias poderiam ser diferentes se alguém tivesse escutado antes?

A escuta não muda o passado. Mas ela muda a forma como o passado continua vivendo dentro da gente.

O sofrimento psíquico na vida real: quando não vira vilania, mas vira silêncio

No cinema, o sofrimento precisa escalar até virar explosão. Na vida real, quase sempre ele escolhe outro caminho: o silêncio.

A maioria das pessoas que carregam dor emocional continuam funcionando. Trabalham. Sorrirem em fotos. Respondem “tudo bem” quando perguntam como estão.

E continuam exaustas por dentro.

Como o sofrimento psíquico aparece no dia a dia?

Sofrimento psíquico raramente começa com algo grandioso. Ele costuma surgir de forma gradual:

– sensação constante de inadequação – medo de errar que paralisa – tristeza persistente sem causa aparente – irritação frequente seguida de culpa – dificuldade de relaxar ou descansar

Isso não é fraqueza. É sobrecarga emocional acumulada.

Na prática clínica, é comum ouvir frases como:

“Eu sempre fui assim.” “Eu sou complicado.” “Eu estrago tudo.”

Mas ninguém nasce acreditando que é um problema. Essas crenças se constroem ao longo da vida — especialmente quando a pessoa cresce em ambientes onde sentimentos não são reconhecidos ou onde o afeto depende de desempenho.

A negligência emocional não precisa ser dramática para deixar marcas. Às vezes ela se manifesta na ausência de conversas profundas. Na falta de acolhimento. Na exigência constante de maturidade precoce.

E o resultado pode aparecer na vida adulta como:

– ansiedade crônica – dificuldade em confiar – medo intenso de abandono – explosões de raiva seguidas de arrependimento – isolamento social – dependência emocional

O sofrimento psicológico também pode se manifestar no corpo:

Tensão muscular constante. Insônia. Taquicardia. Fadiga persistente.

O organismo aprende a viver em estado de alerta.

E aqui está algo essencial:

Muitas pessoas demoram anos para perceber que o que sentem tem nome.

Elas acreditam que é personalidade. Que é “jeito difícil”. Que é falta de força de vontade.

Mas sofrimento psíquico não tratado não desaparece com disciplina. Ele precisa de compreensão e elaboração.

A grande diferença entre a ficção e a vida real é que, fora das telas, quase sempre existe oportunidade de intervenção antes do colapso.

O que muda o rumo de uma história não é um evento grandioso. É um espaço seguro onde alguém pode finalmente dizer o que sente — e ser levado a sério.

E isso nos leva à próxima reflexão:

Por que exatamente Coringa mexe tanto conosco?

Cinema, psicologia e filosofia: por que “Coringa” nos desconcerta tanto?

Alguns filmes entretêm. Outros incomodam. Coringa faz as duas coisas — mas o que permanece não é o espetáculo visual, é o mal-estar.

E esse mal-estar tem explicação.

Por que o filme causa tanto impacto emocional?

Porque ele nos coloca diante de algo que preferimos não enxergar: o sofrimento psíquico causado por exclusão, negligência emocional e ausência de reconhecimento.

Do ponto de vista cinematográfico, o filme constrói uma atmosfera de isolamento quase sufocante. A fotografia escura, os enquadramentos fechados, os silêncios prolongados e a trilha sonora densa colocam o espectador dentro da mente de Arthur.

Não é apenas uma história que assistimos. É uma experiência emocional que atravessamos.

A câmera se demora no rosto dele. Não há pressa. O desconforto é intencional. Somos obrigados a olhar.

E olhar de perto é sempre mais difícil.

Mas o impacto não é apenas estético.

Ele toca em algo profundamente humano:

– o medo de se tornar irrelevante – o medo de não pertencer – o medo de ser descartável

Esses medos fazem parte da experiência humana — e estão diretamente ligados à construção da identidade e à saúde mental.

O que a psicologia explica sobre isso?

A trajetória de Arthur dialoga com conceitos amplamente estudados sobre trauma, exclusão social e desenvolvimento emocional.

A dor repetida — especialmente quando começa na infância — molda a forma como alguém percebe o mundo e a si mesmo.

É fundamental destacar: compreender não é justificar.

A psicologia não trabalha para absolver comportamentos destrutivos. Trabalha para entender como eles se constroem.

Existe um princípio importante na ciência do comportamento:

Todo comportamento tem função.

Mesmo quando é disfuncional, ele tenta resolver algo internamente.

– A agressividade pode ser uma tentativa desesperada de recuperar controle. – O isolamento pode ser uma estratégia para evitar nova rejeição. – O riso inadequado pode ser uma forma de descarregar tensão extrema.

O filme não usa termos técnicos, mas mostra com clareza como a exclusão contínua altera a percepção da realidade.

E é aqui que a filosofia amplia a discussão.

O que a filosofia diz sobre reconhecimento?

Ao longo da história, diversos pensadores refletiram sobre o impacto do reconhecimento na construção do sujeito.

A identidade não se forma apenas internamente. Ela depende da forma como somos vistos pelo outro.

Ser reconhecido não significa apenas ser notado. Significa ser validado como alguém que importa.

Quando esse reconhecimento falha repetidamente, algo se fragiliza.

A pessoa pode começar a se perguntar:

“Se ninguém me enxerga, eu existo de fato?” “Eu tenho valor?” “Eu pertenço a algum lugar?”

Essas perguntas não são exagero dramático. Elas aparecem, em versões silenciosas, no cotidiano de muitas pessoas que enfrentam sofrimento psicológico.

É por isso que Coringa desconcerta.

Ele não nos permite classificar Arthur apenas como “monstro”. Reconhecemos traços humanos ali. Fragilidade. Solidão. Humilhação.

E talvez o incômodo venha daí:

Perceber que sofrimento psíquico não é raro. Ele é comum. O que varia é o desfecho.

O cinema funciona como espelho. E esse filme reflete algo que muitas vezes preferimos evitar: o impacto da negligência emocional prolongada e da exclusão social.

Mas existe uma diferença fundamental entre o cinema e a vida real.

No cinema, a história precisa de clímax. Na vida real, a maioria das histórias precisa de escuta.

Talvez o maior desconforto que Coringa provoque seja justamente esse: ele mostra o que pode acontecer quando ninguém intervém a tempo.

E isso nos leva à pergunta mais importante do ponto de vista clínico:

Como interromper esse ciclo antes do colapso?

O que o filme “Coringa” nos ensina sobre sofrimento psíquico e negligência emocional (8)

A lente da Análise Clínica do Comportamento: compreendendo o sofrimento antes do colapso

Quando assistimos a Coringa, é comum perguntar:

“Como alguém chega a esse ponto?”

Na clínica psicológica, porém, a pergunta costuma ser outra:

“O que foi acontecendo ao longo do caminho?”

Essa mudança de pergunta é fundamental para compreender sofrimento psíquico de forma responsável.

A Análise Clínica do Comportamento parte de um princípio central:

Comportamento tem história.

Nada surge do nada. Cada reação, cada padrão emocional, cada forma de se relacionar foi aprendida em algum contexto.

Isso não significa que a pessoa esteja condenada ao passado. Significa que o passado ajuda a explicar o presente.

Se olharmos para Arthur sob essa lente, a pergunta deixa de ser “o que há de errado com ele?” e passa a ser:

“O que ele aprendeu sobre si mesmo e sobre o mundo?”

Talvez ele tenha aprendido que:

– o mundo é imprevisível – confiar é perigoso – ser gentil não garante proteção – pedir ajuda não adianta

Quando experiências negativas se repetem, o organismo se adapta.

E adaptação não é sinônimo de saúde. É sinônimo de sobrevivência.

Por exemplo:

– Quem foi humilhado ao se expor pode aprender a se calar. – Quem foi rejeitado ao demonstrar vulnerabilidade pode aprender a se fechar. – Quem só recebeu atenção em situações extremas pode intensificar comportamentos para finalmente ser visto.

Sob essa perspectiva, o comportamento é uma tentativa de sobrevivência emocional.

Mesmo aquilo que parece desorganizado pode ter função.

– A irritação constante pode proteger contra a sensação de impotência. – O isolamento pode evitar novas rejeições. – A explosão pode ser uma forma de recuperar sensação de controle.

Na Análise Clínica do Comportamento, não se trabalha apenas com rótulos. Trabalha-se com função.

Em vez de perguntar “qual é o problema?”, pergunta-se:

– O que mantém esse padrão? – Em quais situações ele aparece? – O que a pessoa ganha ou evita quando reage assim? – Que experiências anteriores contribuíram para isso?

Esse olhar muda tudo.

Porque quando compreendemos a função do sofrimento psíquico, abrimos espaço para transformação.

Uma pessoa que cresceu em ambiente de negligência emocional pode ter aprendido a desconfiar constantemente. Pode interpretar neutralidade como ameaça. Pode reagir de forma intensa a pequenas frustrações.

Não porque é “dramática”. Mas porque seu sistema emocional foi treinado para esperar abandono.

Percebe como a história importa?

A grande diferença entre o cinema e a clínica é que, na vida real, há tempo para intervenção.

O que foi aprendido pode ser revisado. O que foi condicionado pode ser reavaliado. O que foi automatizado pode ser reorganizado.

A psicoterapia não apaga o passado. Ela reorganiza a forma como o passado continua atuando no presente.

Ela oferece algo que Arthur quase não teve: continuidade de escuta.

E continuidade é fundamental. Porque sofrimento psíquico raramente se resolve em uma única conversa. Ele precisa de um espaço seguro onde a pessoa possa compreender seus padrões, reconhecer suas dores e experimentar novas formas de se posicionar no mundo.

A pergunta deixa de ser:

“Como evitar que alguém se torne um Coringa?”

E passa a ser:

“Como reconhecer sinais de sofrimento antes que a pessoa precise gritar para ser ouvida?”

É exatamente aí que entra o papel da psicoterapia.

O papel da psicoterapia: interrompendo ciclos silenciosos de negligência emocional

Existe uma cena em que Arthur diz que sempre achou que sua vida fosse uma tragédia — até perceber que era uma comédia. A frase soa irônica, mas revela algo profundo: quando o sofrimento psíquico não é elaborado, ele pode distorcer a forma como enxergamos a nós mesmos e o mundo.

Na vida real, o que muda o rumo de uma história raramente é um evento extraordinário. É um espaço seguro onde alguém pode finalmente falar — sem ser interrompido, ridicularizado ou ignorado.

É assim que começa a psicoterapia.

Não com soluções mágicas. Não com conselhos prontos. Mas com escuta qualificada.

Pode parecer simples, mas não é. Ser escutado de verdade é raro. Escutado sem julgamento. Sem pressa. Sem que o outro tente corrigir o que você sente.

Quando alguém viveu negligência emocional, costuma carregar uma crença silenciosa: “Meus sentimentos incomodam.”

Então aprende a minimizar a própria dor. Aprende a dizer que está tudo bem quando não está. Aprende a funcionar no automático.

A psicoterapia interrompe esse ciclo.

Ela cria um espaço onde emoções deixam de ser exagero e passam a ser informação. Onde sintomas deixam de ser defeitos e passam a ser sinais. Onde padrões deixam de ser “jeito difícil” e passam a ser histórias que podem ser compreendidas.

Quando procurar psicoterapia?

Muitas pessoas acreditam que precisam estar no fundo do poço para buscar ajuda. Mas o sofrimento psicológico não precisa chegar ao colapso para ser levado a sério.

Ele pode aparecer como:

– sensação constante de inadequação – dificuldade de manter relacionamentos saudáveis – medo intenso de rejeição – explosões emocionais seguidas de culpa – ansiedade persistente – exaustão mental que não melhora com descanso

Esses sinais não são fraqueza. São alertas de que algo precisa ser olhado com mais cuidado.

Na Análise Clínica do Comportamento, o processo terapêutico ajuda a identificar como determinados padrões foram aprendidos e o que os mantém ativos no presente. Não para culpar o passado — mas para compreender a função do sofrimento e abrir espaço para mudança.

Quando alguém percebe, por exemplo, que sua irritação frequente é uma tentativa de se proteger da sensação de desvalorização, algo começa a se reorganizar internamente.

Compreensão abre espaço para escolha.

Escolher reagir diferente. Escolher estabelecer limites. Escolher não repetir ciclos. Escolher se posicionar de forma mais saudável.

A psicoterapia não transforma alguém em outra pessoa. Ela ajuda a pessoa a se reconectar com partes que foram silenciadas pela negligência emocional ou por experiências repetidas de invalidação.

Talvez Arthur tenha precisado de continuidade de cuidado. De validação consistente. De um espaço onde sua dor não fosse tratada como um incômodo administrativo.

Na vida real, esse espaço existe.

Ele pode estar em um consultório de psicoterapia em Goiânia. Pode acontecer por meio de atendimento psicológico online, com sigilo e acolhimento. Pode começar com uma frase simples: “Eu acho que preciso conversar.”

Sofrimento psíquico não é sinal de fracasso. É sinal de que algo dentro de você está pedindo atenção.

E quando a dor encontra escuta qualificada, ela não precisa virar espetáculo.

Ela pode virar transformação.

Referências cinematográficas, psicológicas e filosóficas que ajudam a compreender o sofrimento humano

Coringa não surge no vazio. Ele dialoga com tradições do cinema, com teorias consolidadas da psicologia e com reflexões filosóficas sobre identidade, reconhecimento e exclusão social.

No campo cinematográfico, o filme se insere em narrativas que exploram solidão urbana, marginalização e deterioração subjetiva. A cidade não é apenas cenário — é personagem. Gotham funciona como metáfora de uma sociedade que produz invisibilidade.

Essa escolha narrativa reforça um ponto já amplamente estudado na psicologia: o ambiente influencia diretamente a construção do comportamento e da identidade.

Não somos formados isoladamente. Somos moldados por contextos, vínculos, experiências repetidas — e também pela ausência deles.

Na psicologia clínica, sofrimento psíquico é compreendido como resultado da interação entre história de vida, ambiente e aprendizagem emocional. Traumas precoces, negligência afetiva, exclusão social e invalidação constante deixam marcas que influenciam a forma como a pessoa interpreta o mundo e reage a ele.

Estudos contemporâneos sobre regulação emocional mostram algo consistente: emoções ignoradas ou reprimidas não desaparecem. Elas tendem a reaparecer com maior intensidade.

O que não é elaborado retorna.

A filosofia também amplia essa compreensão. Pensadores que discutiram reconhecimento humano demonstraram que identidade não é construída apenas internamente. Ela depende do olhar do outro.

Ser reconhecido é uma necessidade humana básica.

Quando esse reconhecimento falha repetidamente — na família, na escola, no trabalho, nas instituições — o senso de pertencimento pode se fragilizar.

E é nesse ponto que o filme nos perturba.

Ele mostra o que pode acontecer quando o reconhecimento falha em todas as esferas.

Mas é fundamental reforçar:

Compreender não é justificar.

A psicologia não trabalha para absolver comportamentos destrutivos. Trabalha para entender como se constroem, como se mantêm e, principalmente, como podem ser prevenidos por meio de intervenções adequadas.

E é exatamente aí que a escuta terapêutica ganha centralidade.

Quando a dor encontra escuta, a história pode mudar

Talvez o maior impacto de Coringa não esteja na violência, mas na sensação de que algo poderia ter sido diferente.

E essa sensação é profundamente humana.

Ao longo deste artigo, falamos sobre sofrimento psíquico, negligência emocional, exclusão social e construção da identidade. Falamos sobre como padrões se formam e como podem se intensificar quando não encontram intervenção.

Mas a vida real não precisa seguir o roteiro do cinema.

A maioria das pessoas que sofre não quer destruir nada. Quer ser compreendida. Quer sentir que tem valor. Quer descansar da própria mente por alguns instantes.

Sofrimento psicológico não é fraqueza. É um sinal de que algo precisa de cuidado.

Talvez você tenha se reconhecido em partes deste texto. Talvez tenha pensado em alguém próximo. Talvez tenha lembrado de momentos em que se sentiu invisível.

Se isso aconteceu, já é um começo.

A psicoterapia transforma dor em compreensão. E compreensão em possibilidade de escolha.

Você não precisa esperar que a vida fique insuportável para buscar ajuda. Não precisa estar em colapso. Não precisa ter um “motivo grande o suficiente”.

Às vezes, o motivo é simples: você está cansado de carregar tudo sozinho.

Se você busca psicoterapia em Goiânia ou prefere atendimento psicológico online, existe um espaço seguro para conversar — com escuta ética, sigilo e acolhimento.

Porque, diferente do cinema, a sua história ainda está sendo escrita.

E quando o sofrimento psíquico encontra escuta, ele não precisa virar tragédia.

Ele pode virar transformação.

Sobre a autora

Daniele Pereira e Silva é psicóloga clínica e jurídica, com atuação em Goiânia e atendimento psicológico online. Trabalha com Análise Clínica do Comportamento, auxiliando pessoas que enfrentam sofrimento psíquico, traumas da infância, conflitos emocionais e situações jurídicas complexas.

Referências

Cinema

PHILLIPS, Todd (Dir.). Coringa (Joker). Roteiro: Todd Phillips e Scott Silver. Estados Unidos: Warner Bros. Pictures, 2019.

SILVER, Scott; PHILLIPS, Todd. Joker: The Screenplay. Los Angeles: Warner Bros., 2019.

Psicologia

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LINEHAN, Marsha M. Terapia Comportamental Dialética: Teoria e Prática. Porto Alegre: Artmed, 2018.

SIEGEL, Daniel J. O Cérebro da Criança. São Paulo: nVersos, 2012.

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BRASIL. Conselho Federal de Psicologia. Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas(os) na Clínica. Brasília: CFP, 2013. Disponível em: https://site.cfp.org.br/

Filosofia e Reconhecimento

HONNETH, Axel. Luta por Reconhecimento: A Gramática Moral dos Conflitos Sociais. São Paulo: Editora 34, 2003.

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CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2010.

FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes, 2008.

Dados sobre Saúde Mental

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BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde Mental no Brasil: dados epidemiológicos e políticas públicas. Brasília: MS, 2022.

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