Nos dois primeiros textos desta série, falamos do silenciamento da Mulher Selvagem e da presença do predador íntimo nas relações abusivas. Uivar juntas, neste contexto, surge como contraponto a esse processo: um movimento que rompe o isolamento imposto pela violência. Vimos como a violência contra a mulher se constrói de forma gradual, começando pelo apagamento da intuição, passando pelo controle psicológico e, em muitos casos, chegando ao feminicídio como ponto final de um processo longo e anunciado.
Neste terceiro e último texto, o olhar se amplia. Saímos do espaço estritamente individual e entramos no campo coletivo, social e político da experiência psicológica. As manifestações recentes de mulheres contra o feminicídio no Brasil não surgem do nada. Elas são resposta a um acúmulo de violência, medo e indignação que ultrapassa histórias individuais e passa a marcar um grupo inteiro.
A ideia central aqui é compreender o grito coletivo não como descontrole ou exagero, mas como resposta psíquica legítima à violência. Uivar, na linguagem simbólica de Mulheres que Correm com os Lobos, é um gesto de sobrevivência, denúncia e reconstrução. É o momento em que a voz que foi silenciada no âmbito privado encontra eco no espaço público.
Este é o Post 3 e último da série, e ele propõe uma pergunta fundamental: o que acontece, psicologicamente, quando mulheres deixam de sofrer sozinhas e passam a uivar juntas?
Conteúdo
FAQ: Uivar juntas: o significado psicológico das manifestações contra o feminicídio
O que significa “uivar juntas” na psicologia?
Uivar juntas é a expressão do rompimento do silêncio diante da violência, transformando sofrimento individual em reconhecimento e proteção coletiva.
Por que mulheres protestam contra o feminicídio?
Porque a violência repetida gera medo crônico e esgotamento emocional coletivo, tornando o grito uma resposta psíquica legítima de defesa.
O grito coletivo é sinal de descontrole emocional?
Não. Psicologicamente, o grito é uma forma de autoproteção quando o silêncio se torna insustentável.
Qual a relação entre “Mulheres que Correm com os Lobos” e os protestos?
O uivo simboliza a recuperação da voz instintiva e a quebra do isolamento, criando conexão e força coletiva.
Quando buscar ajuda psicológica diante da violência?
Quando o medo passa a limitar escolhas, silenciar a intuição ou reduzir a liberdade de viver.
Quando o silêncio deixa de ser possível
O limite psíquico do suportável
Toda violência prolongada produz um limite. Há um ponto em que o corpo, a mente e o grupo social já não conseguem mais sustentar o silêncio. Do ponto de vista psicológico, as manifestações contra o feminicídio podem ser compreendidas como expressão desse limite psíquico do suportável.
A violência acumulada ao longo dos anos — notícias constantes de feminicídios, relatos de agressões, histórias de mulheres não protegidas — gera um esgotamento emocional coletivo. O medo deixa de ser episódico e passa a se instalar como estado psíquico permanente. Mulheres mudam rotinas, trajetos, horários, comportamentos. Vivem em constante adaptação ao risco.
Autores da psicologia social e do trauma apontam que, quando o medo se torna crônico, ele deixa de ser apenas individual e passa a organizar a experiência de um grupo. A filósofa Judith Butler, ao falar sobre vidas precarizadas, mostra como certos grupos são expostos a uma vulnerabilidade contínua, que não é fruto de escolhas individuais, mas de estruturas sociais que falham em protegê-los.
O grito como resposta legítima
Quando o silêncio deixa de ser possível, o grito emerge. E é importante dizer com clareza: gritar não é descontrole. Gritar, nesse contexto, é defesa. É tentativa de interromper um ciclo que já demonstrou ser mortal.
A psicologia clínica compreende que emoções intensas não são patológicas por si mesmas. A raiva diante da injustiça, o medo diante da ameaça e a indignação diante da violência são respostas humanas esperadas. O problema não está na emoção, mas no silenciamento dela.
O grito coletivo das manifestações rompe a lógica da violência privada, aquela que se sustenta no isolamento e na vergonha. Ao ocupar o espaço público, esse grito transforma o sofrimento individual em denúncia social. Ele diz: “isso não é um problema meu, é um problema nosso”.
O uivo como metáfora psicológica
O que significa uivar em Mulheres que Correm com os Lobos
Em Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés utiliza o uivo como uma das imagens mais potentes da Mulher Selvagem. Uivar é recuperar a voz instintiva, aquela que chama, alerta e convoca. Não é um som bonito ou educado. É um som necessário.
Uivar significa romper o isolamento, sair da toca, chamar a matilha. Na linguagem psicológica, isso equivale a romper o silenciamento imposto pela violência e buscar conexão. A Mulher Selvagem uiva porque sabe que a sobrevivência não é solitária.
Essa imagem dialoga com a ideia de pertencimento estudada por autores como Donald Winnicott, para quem a experiência de existir depende de um ambiente que sustente, reconheça e responda. Quando não há resposta, o sujeito adoece. Quando há eco, algo se reorganiza.
Quando o uivo deixa de ser individual
Nas manifestações, o uivo deixa de ser individual e se torna coletivo. E isso muda tudo. O sofrimento que antes parecia isolado passa a ser reconhecido como compartilhado. A dor deixa de ser vivida como falha pessoal e passa a ser compreendida como resultado de uma violência estrutural.
Do ponto de vista psicológico, o coletivo oferece validação, algo essencial para a elaboração do trauma. Judith Herman destaca que o trauma se agrava no isolamento e começa a ser elaborado quando há testemunho, reconhecimento e vínculo. O uivo coletivo cumpre essa função: ele testemunha, reconhece e conecta.
Ao uivarem juntas, mulheres não apenas denunciam a violência, mas reconstroem laços, fortalecem a percepção de risco e criam redes simbólicas e reais de proteção. O que era vivido em silêncio passa a ser dito em voz alta — e ouvido.

Trauma coletivo e violência de gênero
O feminicídio como ferida social
O feminicídio não é apenas a morte de uma mulher. Ele é uma ferida social. Cada caso afeta não só familiares e pessoas próximas, mas mulheres como grupo. A repetição dessas mortes produz um clima psíquico coletivo marcado por alerta constante, desconfiança e sensação de desproteção.
Na psicologia social, entende-se que traumas repetidos, quando atingem um mesmo grupo, deixam de ser eventos isolados e passam a compor um trauma coletivo. Judith Herman aponta que a violência sistemática cria estados prolongados de medo e vigilância, mesmo em quem não sofreu agressão direta. O corpo social aprende a antecipar o perigo.
Isso explica por que tantas mulheres relatam medo ao circular sozinhas, ao entrar em relacionamentos ou ao se posicionar. Não se trata de exagero ou fragilidade emocional, mas de adaptação a um contexto percebido como hostil. Quando o risco é real e recorrente, o psiquismo responde tentando proteger a vida.
O impacto psicológico nas mulheres que sobrevivem
As mulheres que sobrevivem à violência — seja ela direta ou indireta — carregam marcas que nem sempre são reconhecidas. Entre os efeitos mais comuns estão a hipervigilância, o medo constante de circular livremente, a necessidade de planejar rotas, horários e comportamentos para reduzir riscos.
Esse estado de adaptação permanente consome energia psíquica. A vida vai se estreitando, e o espaço de espontaneidade diminui. Na clínica, muitas mulheres descrevem a sensação de viver “em alerta”, como se algo pudesse acontecer a qualquer momento.
A psicologia do trauma explica que esse funcionamento não é patológico em si; ele se torna adoecedor quando se prolonga sem possibilidade de elaboração. É nesse ponto que o coletivo — e não apenas a terapia individual — passa a ter um papel fundamental.
As manifestações como processo de elaboração psíquica
Dar nome ao que foi silenciado
Uma das funções mais importantes das manifestações contra o feminicídio é dar nome ao que foi silenciado. Nomear a violência é retirar o agressor da invisibilidade e romper a lógica da culpa que recai, historicamente, sobre as mulheres.
Quando o nome “feminicídio” é dito em voz alta, algo muda. O crime deixa de ser tratado como tragédia doméstica, briga de casal ou fatalidade. Ele passa a ser reconhecido como resultado de uma estrutura de violência de gênero.
Do ponto de vista psicológico, nomear é organizar a experiência. Sem nome, o sofrimento se espalha e confunde. Com nome, ele pode ser compreendido, compartilhado e enfrentado. Clarissa Pinkola Estés insiste que a recuperação da Mulher Selvagem passa pela verdade dita, mesmo quando ela é incômoda.
Quando o corpo ocupa o espaço público
As manifestações não são apenas discursivas; elas são corporais. Corpos que antes se escondiam, se encolhiam ou se adaptavam ao medo passam a ocupar o espaço público. Esse movimento tem um significado psicológico profundo.
O corpo, que muitas vezes foi alvo de controle, ameaça ou violência, transforma-se em instrumento de denúncia e resistência. Ao caminhar juntas, gritar palavras de ordem e ocupar ruas e praças, mulheres reafirmam o direito básico de existir sem medo.
A filósofa Judith Butler discute como a presença dos corpos no espaço público tem força política e simbólica. Psicologicamente, essa presença também reorganiza a relação com o próprio corpo, que deixa de ser apenas lugar de ameaça e passa a ser lugar de ação.
Por que o coletivo protege
O isolamento como estratégia da violência
A violência contra a mulher se sustenta, em grande parte, no isolamento. A mulher sozinha é mais vulnerável. O silêncio favorece o agressor. Por isso, uma das primeiras estratégias da violência psicológica é afastar a mulher de suas redes de apoio.
Quando o coletivo se forma, essa lógica se rompe. A experiência individual encontra ressonância, e o medo deixa de ser vivido como falha pessoal. O isolamento dá lugar ao reconhecimento mútuo.
Rede de apoio como fator de proteção
Redes de apoio — outras mulheres, profissionais, instituições, espaços de escuta — funcionam como fatores de proteção reais. Elas ampliam a percepção de risco, oferecem alternativas e reduzem a sensação de desamparo.
Na prática clínica e jurídica, sabe-se que mulheres com redes de apoio têm mais chances de romper ciclos de violência com segurança. O coletivo não substitui a escuta individual, mas a sustenta.
O papel da psicologia diante da violência coletiva
Escutar sem patologizar
Diante das manifestações contra o feminicídio, um risco frequente é a patologização das emoções coletivas. Raiva, indignação, medo e tristeza passam a ser tratados como excesso, histeria ou descontrole. A psicologia precisa se posicionar com clareza: raiva não é doença, medo não é fraqueza, dor não é exagero.
Do ponto de vista clínico, emoções intensas são respostas compreensíveis a contextos de ameaça real. Como já indicava Sigmund Freud, o afeto é um sinal — algo está acontecendo e precisa ser elaborado. Quando a emoção é silenciada ou desqualificada, ela retorna de forma mais desorganizada.
A psicologia, especialmente em sua vertente clínica e social, tem o compromisso ético de escutar sem reduzir o sofrimento a um diagnóstico. O grito coletivo não é sintoma; é linguagem. Ele comunica aquilo que não pôde ser dito por muito tempo.
A clínica como espaço de reconstrução
Se o espaço público permite a denúncia, a clínica oferece o lugar da reconstrução psíquica. É na escuta qualificada que a mulher pode reorganizar sua história, compreender os efeitos da violência vivida e fortalecer novamente seus limites.
Na Análise Clínica do Comportamento, esse processo envolve identificar padrões aprendidos, ressignificar respostas de sobrevivência e ampliar repertórios de ação. Na psicologia do trauma, como aponta Judith Herman, a recuperação passa por três eixos fundamentais: segurança, lembrança com elaboração e reconexão com a vida.
Reconectar com a intuição — com a Mulher Selvagem descrita por Clarissa Pinkola Estés — é parte desse caminho. A clínica não apaga a dor, mas devolve à mulher a capacidade de confiar novamente em si.
Psicologia jurídica e responsabilidade social
Quando a violência precisa ser registrada
Há momentos em que a elaboração subjetiva precisa caminhar junto com o registro formal da violência. Denúncias, avaliações psicológicas e produção de laudos não são atos burocráticos; são instrumentos de proteção.
A psicologia jurídica atua na interface entre o sofrimento psíquico e o sistema de justiça, traduzindo experiências subjetivas em linguagem técnica. Isso é especialmente importante em casos de violência psicológica, onde as marcas não são visíveis, mas os danos são profundos.
Registrar a violência é retirar o agressor do silêncio e da invisibilidade. É também afirmar que a vida da mulher importa — juridicamente, socialmente e simbolicamente.
Proteger vidas também é trabalho técnico
Proteger vidas não é apenas um gesto humanitário; é um trabalho técnico, que exige ética, formação e responsabilidade. A psicologia jurídica contribui para decisões judiciais mais informadas, para a aplicação de medidas protetivas e para a construção de políticas de cuidado mais eficazes.
Como lembrava Hannah Arendt, a responsabilidade ética começa quando deixamos de tratar a violência como exceção e passamos a reconhecê-la como problema estrutural. A psicologia tem papel ativo nesse reconhecimento.
Uivar juntas para continuar vivas
O uivo não é só protesto
O uivo coletivo não é apenas protesto. Ele é aviso, chamado e sobrevivência. Ele diz que algo está errado, que vidas estão em risco e que o silêncio não é mais possível.
Em Mulheres que Correm com os Lobos, uivar é um ato de reconexão com a própria natureza instintiva e com a matilha. No contexto das manifestações, uivar juntas é reafirmar que nenhuma mulher deveria enfrentar a violência sozinha.
Quando procurar ajuda psicológica
A ajuda psicológica deve ser buscada sempre que a vida começa a se reduzir: quando o medo organiza decisões, quando a liberdade se estreita, quando o silêncio pesa mais do que a fala. Após vivências de violência, diante do medo constante ou da sensação de apagamento de si, a escuta profissional é um recurso de proteção.
Buscar ajuda não é recuar. É avançar na direção da própria vida.
Encerramento da série
O que esta série quis dizer
Ao longo destes três textos, uma mensagem central se repete: a violência começa antes, o predador pode ser reconhecido e o coletivo salva. O feminicídio não é um ato isolado, mas o desfecho de processos psíquicos, relacionais e sociais que podem — e devem — ser interrompidos.
Reconhecer a Mulher Selvagem silenciada, identificar Barba-Azul e uivar juntas são movimentos de uma mesma trajetória: a preservação da vida.
Da escuta individual ao grito coletivo
Clínica e sociedade não são campos separados. A escuta individual encontra o grito coletivo, e o cuidado psicológico se torna também um ato político no sentido mais profundo do termo: cuidar da vida em comum.
Como dizia Michel Foucault, cuidar de si é também uma forma de resistir a estruturas que produzem sofrimento. Cuidar da saúde mental das mulheres é resistir à violência que insiste em silenciá-las.
Fale com uma psicóloga
Se esta série tocou em algo da sua história ou ajudou a reconhecer sinais de violência, saiba que você não precisa atravessar isso sozinha. A psicóloga Daniele Pereira e Silva atua com psicologia clínica e jurídica, oferecendo atendimento ético, sigiloso e comprometido com a reconstrução da vida.
O atendimento é realizado em Goiânia ou online, com foco em escuta qualificada, proteção e fortalecimento da autonomia.
Uivar juntas é sobreviver. Ser ouvida é começar a viver de novo.
Se você precisa de orientação psicológica, acolhimento ou avaliação especializada, entre em contato ou visite nossa página no Instagram. Você não precisa enfrentar tudo sozinho. A Dani está pronta para te ouvir.
Referências
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WALKER, Lenore E. The battered woman syndrome. New York: Springer Publishing Company, 2009.
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ARENDT, Hannah. Responsabilidade e julgamento. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
FROMM, Erich. A arte de amar. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
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CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Referências técnicas para atuação de psicólogas(os) em situações de violência contra a mulher. Brasília: CFP, 2020.

