Separar-se de alguém com quem se construiu uma vida é sempre um processo delicado. Mas quando há filhos, a separação não encerra a história — ela apenas muda a forma como a família passa a existir. O amor, nesses casos, precisa amadurecer: deixa de ser conjugal e se torna parental, exigindo diálogo, equilíbrio emocional e, acima de tudo, responsabilidade afetiva.
Muitos pais chegam à terapia acreditando que a guarda — seja compartilhada ou unilateral — é apenas uma questão jurídica. Mas, na verdade, ela é também um reflexo emocional da relação entre os adultos e do modo como essa relação impacta o desenvolvimento da criança.
A forma como se define e se vive uma guarda revela muito sobre o tipo de vínculo que se está construindo: se ele é baseado em disputa, ou em cooperação; em controle, ou em cuidado.
Neste artigo, vamos refletir sobre isso a partir de dois caminhos complementares:
- O olhar da psicologia clínica e jurídica, que nos ajuda a compreender as dinâmicas emocionais por trás dos modelos de guarda;
- E o olhar simbólico do cinema, especialmente com o filme Kramer vs. Kramer (1979), um retrato sensível sobre o amor, a responsabilidade e o amadurecimento dos vínculos familiares.
A partir dessa combinação, é possível enxergar a separação não como o fim de um laço, mas como a chance de reconstruí-lo sob novas bases: mais conscientes, empáticas e estáveis — especialmente para o bem-estar das crianças.
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Quando o amor muda de forma, mas não de sentido
A separação de um casal costuma gerar o que o psicanalista Donald Winnicott chamava de “descontinuidade emocional”: uma quebra no ambiente que antes era estável.
Para os filhos, essa descontinuidade pode ser sentida como perda, insegurança ou medo do abandono. Por isso, o desafio principal dos pais após o rompimento é restaurar a sensação de segurança emocional — mostrar à criança que, mesmo que a casa e a rotina mudem, o amor e o cuidado permanecem.
A Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby, explica que os vínculos afetivos são a base da saúde emocional de uma criança. Segundo ele, o que mais importa para o desenvolvimento não é a convivência contínua com uma única figura, mas a previsibilidade e a sensação de acolhimento vindas das figuras de cuidado.
Em outras palavras: o que dá segurança à criança é saber que pode contar com ambos os pais, mesmo que eles vivam em casas diferentes.
A psicologia comportamental também oferece uma perspectiva complementar. Dentro da Análise Clínica do Comportamento, abordagem utilizada por Daniele Pereira e Silva, o foco não é apenas nas emoções, mas no contexto que mantém e reforça os comportamentos.
Assim, entender como os pais se comunicam, como reagem aos conflitos e como validam as emoções dos filhos é essencial para compreender o impacto da separação.
Cada palavra dita (ou não dita) se torna um estímulo que pode fortalecer ou fragilizar o vínculo emocional.
A terapeuta Carl Rogers, por sua vez, nos lembra que o vínculo se sustenta sobre três pilares: empatia, autenticidade e aceitação incondicional. Quando aplicamos isso à parentalidade, percebemos que o amor verdadeiro não é o que tenta controlar o outro, mas o que acolhe a diferença, ensina limites e oferece segurança emocional.
Por isso, o papel da psicoterapia nesses momentos é ajudar os pais a separarem os papéis conjugais dos parentais. O casamento pode ter acabado — mas a relação como pai e mãe permanece viva e precisa ser cuidada com maturidade.
Separar-se como casal, permanecer como equipe
Um dos maiores desafios da parentalidade pós-separação é lembrar que, mesmo sem estar juntos, os pais continuam sendo uma equipe no que diz respeito à criação.
Essa noção é a essência do que chamamos de coparentalidade — o esforço conjunto para manter o diálogo, dividir decisões e respeitar o lugar do outro na vida da criança.
Quando a separação é marcada por ressentimentos, culpas e acusações, a tendência é que a criança seja exposta a uma ambiguidade afetiva: ela ama ambos os pais, mas sente que precisa escolher um.
Winnicott alertava que, quando uma criança é colocada nesse lugar, ela perde o “ambiente suficientemente bom” — aquele espaço emocional onde é possível sentir-se segura para amar os dois lados sem medo.
A coparentalidade saudável exige autocontrole emocional e comunicação funcional. A Análise do Comportamento mostra que os comportamentos de cooperação podem e devem ser reforçados: elogiar a atitude do outro genitor, reconhecer um esforço, agradecer por um gesto simples.
Esses reforços positivos criam uma espiral de colaboração que, aos poucos, substitui o padrão de conflito.
E quando isso acontece, quem mais se beneficia é o filho — que passa a ver os pais como adultos capazes de conversar e resolver juntos o que é melhor para ele.

O filme “Kramer vs. Kramer”: um retrato humano da guarda e do afeto
Lançado em 1979, o filme Kramer vs. Kramer, dirigido por Robert Benton e estrelado por Dustin Hoffman (Ted Kramer) e Meryl Streep (Joanna Kramer), tornou-se um marco na forma como o cinema retrata a família contemporânea.
O enredo é simples, mas profundamente humano: Ted, um publicitário obcecado pelo trabalho, vê sua rotina virar de cabeça para baixo quando sua esposa decide deixá-lo e seguir sua vida, deixando para trás o filho do casal, Billy, de seis anos.
No início, o pai é completamente despreparado para lidar com as necessidades do menino.
Há uma das cenas mais emblemáticas do filme — o café da manhã de panquecas — em que ambos erram, se sujam, se irritam e acabam rindo juntos.
Essa cena simboliza o aprendizado da convivência: o amor que nasce não da perfeição, mas do esforço diário em estar presente.
Com o tempo, Ted aprende a equilibrar o trabalho, o cuidado e a escuta emocional. A relação entre pai e filho se fortalece.
Mas, quando Joanna retorna e pede a guarda de Billy, o vínculo construído é colocado à prova.
A disputa judicial traz à tona uma questão central: quem tem o direito de criar o filho — e, mais ainda, o que realmente significa “cuidar”?
O filme reflete o conflito entre dois modelos: o da guarda unilateral, em que um dos pais assume a maior parte das decisões, e o da coparentalidade — ainda incipiente à época, mas hoje reconhecida como guarda compartilhada.
Mais do que uma história sobre separação, Kramer vs. Kramer é um estudo sobre o amor que se reinventa, a paternidade afetiva e o amadurecimento emocional.
O cinema como espelho da vida real
Ao longo da história, o cinema tem sido um poderoso espelho dos conflitos humanos, e Kramer vs. Kramer continua atual justamente porque fala sobre temas universais:
- A dificuldade de equilibrar trabalho e família;
- O medo de não ser suficiente;
- E o desafio de aprender a amar de forma madura, sem posse.
Sob o olhar da psicologia, o filme mostra a transformação de Ted como um processo de desenvolvimento emocional.
No começo, ele é guiado por reforços externos — status, produtividade, reconhecimento profissional.
Mas, com o convívio com o filho, passa a encontrar reforço em algo mais profundo: o vínculo afetivo.
Essa mudança é o que, em termos da Análise do Comportamento, chamamos de reconstrução de contingências — quando o sujeito aprende que o afeto e a presença geram recompensas emocionais mais significativas do que o sucesso material.
Já Joanna, por sua vez, representa um olhar igualmente humano: o de uma mulher que se perdeu em papéis sociais e tenta se reencontrar.
Ao final, quando ela decide não levar Billy consigo, o filme alcança sua mensagem mais comovente: o amor verdadeiro também sabe abrir mão, quando entende que o bem-estar da criança vem antes do próprio desejo.
Assim como nas histórias reais atendidas em consultório, o filme ensina que nenhum modelo de guarda é plenamente saudável se os pais não aprenderem a dialogar.
O que sustenta a saúde emocional do filho é o vínculo — não a forma jurídica da guarda.
Guarda compartilhada: corresponsabilidade e vínculos que se constroem
A guarda compartilhada é, antes de tudo, uma escolha de maturidade.
Ela representa a capacidade de dois adultos — ainda que separados — de reconhecer que a criança não é propriedade de ninguém, mas um ser que precisa continuar tendo acesso, afeto e cuidado de ambos os pais.
No Brasil, a Lei nº 13.058/2014 definiu que esse modelo deve ser a regra, e não a exceção, justamente porque ele preserva o que há de mais importante: o melhor interesse da criança.
Mas, na prática, esse modelo vai muito além da assinatura de um acordo judicial. Ele exige corresponsabilidade emocional — o esforço constante para que pai e mãe mantenham coerência, diálogo e cooperação nas decisões cotidianas da vida do filho.
Quando bem conduzida, a guarda compartilhada cria um ambiente de estabilidade e previsibilidade que favorece o desenvolvimento emocional.
O psicólogo John Bowlby, em sua Teoria do Apego, defendeu que a criança precisa de uma “base segura” — um espaço afetivo onde se sinta protegida e capaz de explorar o mundo. Essa base pode existir mesmo em casas diferentes, desde que as figuras de apego mantenham uma postura consistente e responsiva.
Assim, o foco da guarda compartilhada não é o tempo físico de convivência, mas o vínculo de continuidade emocional.
A criança deve sentir que ambos os pais estão presentes em suas decisões, nos seus desafios e conquistas — mesmo que a rotina seja dividida.
É aqui que o olhar da Análise Clínica do Comportamento, base do trabalho da psicóloga Daniele Pereira, se torna essencial.
Enquanto muitas abordagens tratam o conflito apenas no nível emocional, a Análise do Comportamento busca compreender as funções dos comportamentos parentais: o que cada ação comunica, o que reforça ou enfraquece o vínculo, e como os pais podem reorganizar esses padrões.
A coparentalidade, portanto, é aprendida.
Ela se constrói a partir da observação e do reforço de comportamentos colaborativos — ouvir, reconhecer, validar o outro — até que essa nova forma de relação se torne parte natural da rotina familiar.
A comunicação como base da coparentalidade
A comunicação entre os pais é o alicerce invisível da guarda compartilhada.
Sem ela, qualquer acordo jurídico se torna letra morta.
É o diálogo que permite decidir juntos, resolver imprevistos, alinhar regras e evitar que a criança receba mensagens contraditórias.
Quando o diálogo é saudável, a criança percebe coerência entre os dois lares — o que, na visão de Urie Bronfenbrenner, é fundamental.
Em sua Teoria dos Sistemas Ecológicos, o autor explica que o desenvolvimento humano depende da harmonia entre os ambientes que cercam o indivíduo.
No caso da criança, esses ambientes são os lares parentais, a escola e os contextos sociais. Se há conexão e previsibilidade entre eles, a criança se sente segura para explorar e aprender.
Por outro lado, quando os pais estão em conflito constante, o que chega até a criança é uma comunicação emocionalmente caótica.
Ela pode internalizar a tensão, sentir-se responsável pela discórdia e desenvolver comportamentos de evitação, ansiedade ou culpa.
Winnicott descrevia isso como “colocar a criança no centro de uma tempestade emocional que não é dela”.
Por isso, na prática terapêutica, um dos principais objetivos é restaurar o diálogo funcional entre os pais — mesmo que eles não mantenham uma relação afetiva positiva.
O que se busca é cooperação técnica e emocional, suficiente para garantir que o filho continue crescendo em um ambiente previsível e protegido.
Reforço positivo e aprendizado do vínculo
A Análise do Comportamento nos ensina que todo comportamento tende a se repetir quando é reforçado.
Isso vale também para os relacionamentos familiares.
Em vez de esperar que a colaboração surja espontaneamente, é possível modelar o comportamento cooperativo entre os pais através de reforços sutis e constantes.
Um simples “obrigado por ter levado” ou “foi bom você ter lembrado” pode mudar o tom de toda uma conversa.
Esses pequenos gestos, quando repetidos, enfraquecem os padrões de hostilidade e reforçam a parceria.
No consultório, é comum observar como pais inicialmente distantes passam a cooperar de maneira mais natural quando percebem os efeitos positivos dessa troca — tanto no próprio humor quanto na reação do filho.
Essa dinâmica confirma o que Carl Rogers afirmava: vínculos saudáveis se constroem pela empatia e autenticidade, e não pela imposição.
A guarda compartilhada, então, funciona melhor quando os pais aprendem a reconhecer que o outro também é importante para o filho — e que validar esse lugar não diminui ninguém.
No campo jurídico, isso se traduz em um conceito que a psicologia forense reforça há décadas: o princípio do melhor interesse da criança.
Em todas as decisões judiciais, o critério central não é o que o pai ou a mãe desejam, mas o que favorece o equilíbrio emocional da criança.
E nada é mais benéfico para esse equilíbrio do que o sentimento de pertencimento aos dois mundos — o do pai e o da mãe — sem precisar escolher entre eles.
O papel da psicoterapia no fortalecimento dos vínculos
A psicoterapia pode atuar como um espaço de reconstrução.
Em sessões de atendimento parental, a psicóloga ajuda cada genitor a identificar os comportamentos que mantêm o conflito e a substituí-los por atitudes mais funcionais.
A terapia não muda o passado, mas cria novas formas de interação.
A Análise Clínica do Comportamento, abordagem de base científica que Daniele Pereira utiliza, é especialmente eficaz nesses casos, pois trabalha com observação de padrões, feedback contínuo e planejamento de reforços positivos.
A cada sessão, os pais aprendem a se observar, a regular a própria resposta emocional e a priorizar o bem-estar da criança nas decisões.
Além disso, a psicoterapia oferece suporte para lidar com sentimentos como culpa, ciúme, raiva e medo de substituição, emoções comuns após a separação.
Ao reconhecê-las e compreendê-las, o adulto se torna mais capaz de agir com empatia e menos com impulsividade — o que, segundo Daniel Goleman, é o núcleo da inteligência emocional.
Quando a guarda compartilhada é vivida com essa consciência, ela se transforma de um acordo jurídico em um ato contínuo de amor e aprendizado.
Guarda unilateral: quando o cuidado recai sobre um dos lados
Nem sempre é possível manter uma guarda compartilhada.
Em alguns casos, o nível de conflito entre os pais, a distância geográfica, ou até situações de risco físico e emocional tornam inviável o exercício conjunto da parentalidade.
Nessas circunstâncias, a guarda unilateral surge como uma alternativa necessária para proteger o bem-estar da criança.
Mas o fato de a responsabilidade legal recair sobre apenas um dos pais não significa que o vínculo com o outro deva ser interrompido.
Pelo contrário — é justamente nesses contextos que o cuidado psicológico precisa ser redobrado para preservar a relação afetiva.
O risco maior é que o distanciamento geográfico ou emocional se transforme em distanciamento psíquico, abrindo espaço para dinâmicas como a alienação parental, uma das práticas mais prejudiciais ao desenvolvimento infantil.
De acordo com a Lei nº 12.318/2010, a alienação parental é qualquer interferência na formação psicológica da criança ou adolescente promovida por um dos genitores, com o objetivo de prejudicar o vínculo com o outro.
A psicóloga jurídica Daniele Pereira e Silva, especialista em perícias de alienação parental em Goiânia, explica que “esses casos exigem sensibilidade e técnica, pois o que está em jogo não é apenas uma disputa judicial, mas o equilíbrio emocional de uma criança que precisa continuar amando livremente os dois pais”.
A psicologia jurídica e clínica atuam, portanto, para preservar o vínculo e proteger o desenvolvimento emocional, mesmo quando há assimetria na guarda.
A importância de reconhecer a função parental de ambos
Para entender os efeitos da guarda unilateral, é preciso voltar à teoria das relações objetais de Melanie Klein, que descreve como a criança internaliza as figuras parentais.
Segundo ela, desde cedo o psiquismo infantil busca integrar os dois polos — o da proteção e o da autoridade — representados pelas figuras de mãe e pai (ou por quem exerça essas funções).
Quando uma dessas figuras é excluída, a criança tende a criar divisões internas: um lado idealizado e outro rejeitado.
Na prática clínica, observa-se que crianças privadas do convívio equilibrado com ambos os pais podem desenvolver comportamentos ambivalentes, como culpa por amar um dos lados ou medo de decepcionar o outro.
Essas emoções, se não forem trabalhadas, podem evoluir para quadros de ansiedade, insegurança e baixa autoestima.
A guarda unilateral, portanto, deve ser acompanhada de estratégias que mantenham o vínculo simbólico e afetivo com o genitor não guardião.
Isso inclui o estímulo à comunicação, chamadas de vídeo, participação em decisões escolares e de saúde, e a presença regular em momentos importantes.
O que precisa ser evitado é transformar a ausência física em apagamento emocional.
Nessas situações, o papel do psicólogo é ajudar o cuidador principal a reconhecer que permitir a presença do outro não é fraqueza, mas ato de amor e maturidade emocional.
Como diria Carl Rogers, aceitar o outro genuinamente é o primeiro passo para oferecer à criança um amor que não impõe escolha, mas oferece segurança.
Quando a ausência vira silêncio: o risco da alienação parental
A alienação parental raramente começa com gestos grandiosos; geralmente se infiltra em pequenas atitudes cotidianas:
comentários depreciativos, omissões de informações, interrupção de ligações, manipulação de sentimentos ou tentativas de desqualificar o outro genitor.
Essas ações, ainda que pareçam sutis, produzem na criança um conflito de lealdade — um sentimento de culpa por amar o pai ou a mãe “errado”.
Com o tempo, esse processo pode evoluir para rejeição injustificada e até recusa em conviver, o que configura o quadro clássico de alienação.
A psicologia jurídica, como explica Daniele Pereira em seus artigos sobre o tema, atua nesses casos por meio de avaliações psicológicas e perícias técnicas, nas quais se investiga a coerência dos relatos, o padrão de comunicação e as dinâmicas emocionais da família.
O objetivo não é punir, mas proteger a criança e restaurar vínculos.
A Teoria do Apego de Bowlby novamente nos oferece um entendimento essencial: quando o laço com uma das figuras de apego é rompido por interferência externa, a criança experimenta um estado de perda ambígua — ela sente que aquele vínculo existe, mas é forçada a negá-lo.
Esse tipo de sofrimento pode gerar comportamentos de retraimento, raiva e confusão afetiva que se estendem até a vida adulta.
Por isso, a intervenção precoce é fundamental.
Quanto mais cedo se reconhece o padrão de afastamento, maiores são as chances de reconstrução afetiva.
A psicoterapia e as mediações familiares, com base na Análise Clínica do Comportamento, ajudam os genitores a compreenderem as consequências de suas ações e a substituí-las por comportamentos de aproximação.
A presença afetiva como antídoto à distância
Mesmo quando a guarda é unilateral, a presença afetiva pode e deve ser compartilhada.
O amor não depende de residência fixa — depende de disponibilidade emocional.
É possível ser um pai ou uma mãe presente em diferentes endereços, contanto que haja constância, interesse e vínculo simbólico.
A psicologia moderna reconhece que o contato físico é apenas uma das dimensões do apego.
Pesquisas recentes de Susan Johnson, criadora da Terapia Focada nas Emoções, mostram que a qualidade do vínculo é determinada pela responsividade emocional — isto é, a capacidade de responder às necessidades afetivas do outro com empatia e sintonia.
Uma criança pode ver um dos pais com menos frequência, mas se sentir profundamente amada e validada quando esse tempo é vivido com presença e escuta.
O desafio da guarda unilateral é exatamente esse: transformar o pouco tempo em tempo de qualidade.
Brincar, conversar, ouvir, validar sentimentos e evitar críticas ao outro genitor são atitudes simples que consolidam o vínculo.
Elas comunicam à criança a mensagem mais importante que um pai ou mãe pode oferecer:
“Você pode amar os dois. E está tudo bem.”
Quando essa mensagem é transmitida com sinceridade, a guarda unilateral deixa de ser um terreno de perda e passa a ser um espaço de reconstrução emocional, onde o amor não é medido em horas, mas em gestos de cuidado.
O papel do psicólogo jurídico e clínico nesses contextos
Nos casos de guarda unilateral, a atuação conjunta do psicólogo jurídico e clínico é essencial.
Enquanto o primeiro trabalha com perícias, laudos e mediações — fornecendo elementos técnicos que orientam as decisões judiciais —, o segundo atua no campo do acolhimento e da reconstrução emocional.
Ambos têm um objetivo comum: proteger o melhor interesse da criança.
A psicóloga Daniele Pereira e Silva, que integra essas duas vertentes em sua prática em Goiânia, explica que o trabalho envolve “escuta imparcial, observação detalhada das interações familiares e orientação terapêutica que permita o restabelecimento do vínculo afetivo, mesmo em contextos judicializados”.
Esse olhar duplo — clínico e jurídico — é o que diferencia o simples cumprimento de uma decisão judicial de uma verdadeira reparação emocional.
A psicologia não julga, mas compreende; não toma partido, mas constrói caminhos para que o cuidado volte a ser o centro das relações.
O que aprendemos com Kramer vs. Kramer sobre amor e responsabilidade
Em Kramer vs. Kramer, a disputa judicial pela guarda de Billy não é o verdadeiro conflito — é apenas o palco onde se desenrola uma história sobre amadurecimento emocional e transformação do amor.
O filme, premiado com cinco Oscars em 1980, tornou-se uma referência cultural porque traduziu, de forma sensível e realista, o que acontece quando o amor precisa aprender a se reorganizar após o fim de uma relação conjugal.
No início, Ted Kramer (Dustin Hoffman) é um homem centrado no trabalho, pouco presente na vida doméstica. Sua esposa, Joanna (Meryl Streep), sente-se invisível, esgotada e decide ir embora, deixando Ted responsável pelo filho.
O que se segue é uma sequência de pequenas cenas que mostram a evolução do vínculo entre pai e filho — uma relação construída não a partir da perfeição, mas da tentativa, do erro e da presença cotidiana.
Ted aprende a fazer café da manhã, a ouvir, a ter paciência, a se adaptar ao ritmo do filho.
Joanna, por outro lado, amadurece ao reconhecer que também precisa se reencontrar como mulher e mãe.
Quando os dois voltam a se enfrentar no tribunal, o que está em jogo não é apenas a guarda de Billy, mas o reconhecimento de que o amor parental é feito de cuidado, não de posse.
Essa transformação dos personagens traduz o que a psicologia há muito tempo ensina: o amor que protege é aquele que amadurece, que aprende a abrir espaço, a pedir perdão, a respeitar o tempo e as necessidades do outro.
E é justamente essa maturidade emocional que sustenta qualquer modelo de guarda — compartilhada ou unilateral.
O amadurecimento emocional como aprendizado
A trajetória de Ted no filme é um exemplo claro do que Daniel Goleman chama de inteligência emocional: a capacidade de reconhecer, compreender e regular as próprias emoções e as emoções dos outros.
No início, Ted não sabia lidar com a frustração, nem compreender o sofrimento do filho.
Mas ao longo da narrativa, ele aprende a escutar, a conter impulsos e a oferecer apoio emocional.
Esse processo de aprendizagem não é exclusivo da ficção.
Na prática clínica, vemos diariamente pais e mães que, após uma separação, descobrem o valor da presença emocional.
A separação, quando vivida com responsabilidade e reflexão, pode se tornar um gatilho de crescimento psicológico, uma oportunidade de revisitar padrões, corrigir falhas e reconstruir vínculos sob novas bases.
A Análise Clínica do Comportamento oferece aqui um olhar pragmático: comportamentos de cuidado e empatia não surgem do nada, eles se aprendem, se reforçam e se transformam com a prática.
Cada vez que um pai escuta sem julgar, oferece um abraço, ou valida o sentimento de um filho, ele está fortalecendo contingências positivas — transformando o vínculo em uma experiência segura e previsível.
Essa repetição de comportamentos afetivos é o que Bowlby descreveu como “a base segura do apego”.
A criança aprende que pode sentir medo, raiva ou tristeza, porque há alguém ali que a acolhe, sem afastar-se.
E quando os pais conseguem manter essa base, mesmo após a separação, a criança se desenvolve com confiança — ainda que a estrutura familiar tenha mudado.
Quando o amor aprende a abrir mão
No desfecho de Kramer vs. Kramer, Joanna ganha a guarda de Billy, mas ao perceber o sofrimento do filho, decide deixá-lo com o pai.
Essa cena final, silenciosa e comovente, é uma das mais belas representações do amor amadurecido.
Joanna compreende que amar não é vencer, mas renunciar ao próprio desejo em nome do bem-estar do outro.
Do ponto de vista psicológico, esse gesto traduz o conceito de empatia madura, discutido por autores como Carl Rogers e Susan Johnson.
Rogers falava da “aceitação incondicional positiva” — a capacidade de ver o outro como legítimo em seu modo de ser, sem tentar controlá-lo.
Johnson, na Terapia Focada nas Emoções, descreve a empatia como o principal ingrediente da conexão humana: estar emocionalmente disponível e responsivo à experiência do outro.
No contexto da parentalidade, isso significa reconhecer que o filho tem suas próprias necessidades, que podem divergir dos desejos dos adultos.
A criança não é um troféu nem uma extensão dos pais, mas um sujeito em desenvolvimento que precisa de estabilidade emocional e liberdade para amar.
A cena final do filme, portanto, não é uma derrota — é uma vitória silenciosa da maturidade.
Ao abrir mão, Joanna prova que entendeu o que a psicologia ensina: o verdadeiro amor é o que protege, não o que reivindica.
O vínculo como caminho de cura
Em todas as teorias psicológicas — da psicanálise à análise comportamental — há um ponto em comum: o vínculo é o elemento central da saúde mental.
A criança aprende quem é, o que vale e o quanto pode confiar no mundo a partir das relações que vivencia com suas figuras de apego.
Quando o vínculo é estável e amoroso, ele se torna um fator protetor; quando é marcado por rejeição ou disputa, pode gerar traumas silenciosos que se prolongam até a vida adulta.
Por isso, tanto a psicologia clínica quanto a psicologia jurídica defendem que qualquer decisão sobre guarda deve priorizar a continuidade do vínculo e a previsibilidade emocional.
Daniele Pereira, em sua prática com famílias em Goiânia, observa que o maior ganho terapêutico acontece quando os pais percebem que não precisam ser perfeitos, apenas disponíveis.
Na psicoterapia, trabalhar o vínculo significa ajudar cada genitor a reconhecer o impacto de suas ações, ajustar comportamentos e restaurar a confiança da criança.
Essa reconstrução é um processo, não um ato único.
E, assim como em Kramer vs. Kramer, é feita de pequenos gestos — como o café da manhã improvisado, o pedido de desculpas ou o simples “eu estou aqui”.
Esses gestos, quando somados, tornam-se o alicerce da recuperação emocional e da segurança afetiva.
Da ficção para a vida: o que o filme nos ensina sobre guarda e afeto
“Kramer vs. Kramer” é, acima de tudo, uma lição sobre humanidade.
Ele mostra que os vínculos familiares sobrevivem às separações quando há empatia, comunicação e presença.
O filme também nos convida a refletir sobre algo que a psicologia repete em diferentes vozes teóricas: as crianças não precisam de pais perfeitos — precisam de pais emocionalmente disponíveis.
Sob a ótica da psicologia jurídica, o filme continua atual ao retratar o dilema da guarda: quando as decisões judiciais ignoram o aspecto emocional, o que se ganha em estrutura se perde em vínculo.
Por isso, a integração entre o Direito e a Psicologia é fundamental — para que as sentenças jurídicas considerem também o que é invisível aos olhos, mas essencial à saúde mental: o afeto.
O amor que amadurece, como o de Ted e Joanna, é aquele que entende que a guarda pode mudar, mas o vínculo permanece.
E é esse amor — responsável, compassivo e real — que a psicologia busca restaurar em cada processo de mediação, perícia ou acompanhamento terapêutico.
O papel do psicólogo jurídico e clínico na proteção dos vínculos
Em meio às dores da separação, aos impasses jurídicos e às incertezas emocionais, o psicólogo surge como uma figura de escuta, equilíbrio e reconstrução.
A psicologia jurídica e clínica têm funções complementares: enquanto uma lida com o olhar técnico e imparcial das avaliações judiciais, a outra oferece o espaço terapêutico para o acolhimento das emoções e a reorganização da vida familiar.
Nas palavras da psicóloga Daniele Pereira e Silva, que atua em Goiânia integrando essas duas áreas, “a escuta técnica não precisa ser fria, e a escuta acolhedora não precisa ser cega; é possível unir sensibilidade e método, garantindo que a justiça e o afeto caminhem juntos”.
Essa integração é essencial em casos de guarda compartilhada, guarda unilateral e alienação parental, pois permite compreender o que está além dos documentos: as histórias, os afetos e as necessidades reais das crianças e dos pais.
A escuta técnica como ferramenta de justiça emocional
No contexto jurídico, o psicólogo atua como perito ou assistente técnico, elaborando avaliações psicológicas e laudos periciais que subsidiam as decisões do juiz.
Esses documentos analisam a estrutura emocional dos genitores, a qualidade do vínculo parental e o impacto das dinâmicas familiares sobre a criança.
Em Goiânia, Daniele Pereira é frequentemente nomeada em processos dessa natureza, aplicando instrumentos científicos, entrevistas e observações comportamentais.
Mas, mais do que números e relatórios, o que seu trabalho busca revelar é a verdade emocional das relações: onde há vínculo, onde há medo, onde ainda há espaço para reconstrução.
A imparcialidade, nesse contexto, é também uma forma de cuidado.
O psicólogo jurídico não toma partido, mas protege o interesse da criança, garantindo que ela não se torne refém das dores dos adultos.
Como defende Donald Winnicott, a função do cuidador — seja ele pai, mãe ou profissional — é oferecer um “ambiente suficientemente bom” para que o sujeito se desenvolva sem precisar se defender do mundo o tempo todo.
No âmbito jurídico, isso significa criar decisões que não traumatizem, mas reparem; que não apenas definam, mas restituam.
A psicoterapia como espaço de recomeço
Enquanto o psicólogo jurídico atua para esclarecer o que está acontecendo, o psicólogo clínico trabalha para transformar o que se pode mudar: a forma como cada pessoa lida com o que vive.
Na psicoterapia, os pais encontram um espaço para expressar sentimentos que muitas vezes não cabem nas audiências: a culpa, o medo de perder o amor do filho, a frustração por não conseguir dialogar.
Daniele Pereira, com base na Análise Clínica do Comportamento, utiliza técnicas que ajudam o paciente a identificar padrões disfuncionais — como críticas constantes, retraimento ou tentativas de controle — e substituí-los por comportamentos mais construtivos.
É um processo de educação emocional, onde cada sessão se torna uma oportunidade de aprendizado sobre si e sobre o outro.
O foco da terapia não é encontrar culpados, mas promover responsabilidade emocional.
Isso significa ensinar que cada gesto, cada palavra e cada decisão comunicam algo à criança — e que o afeto, quando expresso de forma consistente, tem poder de cura.
Ao aprender a se autorregular, o adulto também ensina o filho a fazer o mesmo.
Essa é a base do que Daniel Goleman descreveu como inteligência emocional: a capacidade de reconhecer emoções, compreendê-las e transformá-las em empatia.
Assim, a psicoterapia cumpre uma função dupla: ajuda o adulto a elaborar o luto da separação e, ao mesmo tempo, protege o desenvolvimento emocional da criança.
Mediação e reconstrução de vínculos
Em muitos casos, o psicólogo também atua como mediador entre os genitores.
Essa mediação não busca reaproximação conjugal, mas reconstrução parental — um diálogo possível entre duas pessoas que continuarão ligadas pela missão de cuidar de um mesmo filho.
A mediação psicológica segue princípios semelhantes aos de Carl Rogers: empatia, autenticidade e aceitação incondicional positiva.
O profissional cria um ambiente de segurança emocional, onde as partes podem se escutar sem julgamentos.
A partir daí, é possível reconstruir acordos, redefinir rotinas e restabelecer a confiança mínima necessária para o exercício saudável da coparentalidade.
Em Goiânia, essa prática tem sido cada vez mais valorizada pelos tribunais, justamente porque reduz a judicialização dos afetos — substituindo a lógica da disputa pela lógica do diálogo.
Quando o psicólogo consegue reintroduzir o diálogo entre pais que há meses só se comunicavam por meio de advogados, algo muda.
A criança volta a sentir que, apesar das diferenças, ainda existe uma equipe que a protege.
E esse é o verdadeiro objetivo da psicologia nas questões de guarda: restaurar a sensação de pertencimento e continuidade emocional.
O amor não tem guarda, tem presença
A guarda pode definir horários, endereços e responsabilidades legais.
Mas o amor — aquele que educa, acolhe e transforma — não se limita a sentenças ou a dias de visita.
O amor mora na presença.
Estudos de John Bowlby e Winnicott mostraram que o que realmente estrutura a personalidade da criança é a continuidade do cuidado.
E a Análise do Comportamento reforça essa ideia ao demonstrar que os vínculos são aprendidos e fortalecidos pela repetição de experiências positivas.
Ou seja: cada momento de atenção, cada conversa, cada gesto de empatia é uma oportunidade de ensinar segurança e confiança.
A psicologia ensina que o contrário do abandono não é a presença física, mas a disponibilidade emocional.
Pais que conseguem se ouvir, respeitar-se e alinhar decisões transmitem à criança uma mensagem poderosa: “Você é amada por dois mundos que se encontram no cuidado com você.”
O cinema, com Kramer vs. Kramer, e a ciência, com seus inúmeros estudos sobre apego e vínculo, chegam à mesma conclusão: o amor amadurece quando entende que o bem-estar da criança está acima de qualquer orgulho ou mágoa.
Como diz Daniele Pereira em suas reflexões clínicas:
“A guarda é apenas um instrumento legal. O vínculo, esse sim, é o que educa, protege e forma o ser humano.”
E talvez essa seja a lição mais profunda de todas — a que une o olhar do psicólogo, do juiz e do pai ou mãe que sofre:
o amor não se divide entre casas, ele se multiplica em presença, escuta e responsabilidade.
Referências:
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BOWLBY, John. Apego e perda: Apego. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
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